Carlos Eduardo de Almeida Barata
Curriculum


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CARIOCAS BICENTENÁRIOS I

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O trabalho de hoje já não me pertence, e sim uma transcrição de um valioso manancial de informações sobre pessoas que disseram ter mais de 100 anos de idade há exatamente 100 anos atrás, ou seja, em 1906, portanto, nascidas antes de 1806.

 

Procurando informações para um trabalho que venho escrevendo sobre a história de uma das antigas freguesias da Cidade do Rio de Janeiro, deparei-me com este interessante e valioso levantamento feito no recenseamento do ano de 1906, referente as pessoas que diziam ter mais de 100 anos de idade, ou seja, no mínimo nascidas antes de 1806, dois anos antes da chegada da Família Real Portuguesa, na Cidade do Rio de Janeiro.

 

Não pude me conter, e considerei que tal levantamento estaria dentro da temática Subsídios-Genealógicos, que estamos elaborando para a página do Colégio Brasileiro de Genealogia e, de imediato, passei a copiá-lo para aqui habilitá-lo.

 

O Rio de Janeiro, outrora considerado o berço dos velhos, honra ainda esta justa fama. Basta tomar em consideração os algarismos fornecidos pelos recensea-mentos de 1890 e 1906 para verificar desde logo que os exemplos de longevidade não são raros na Capital do Brasil. É possível que muitos dos nossos velhos recenseados como centenários não tenham de fato concluído ou transposto um século de existência. Inquéritos censitários realizados em vários paises têm averiguado sempre o exagero dos algarismos relativos aos maiores de 100 anos. Por ignorância ou falsa presunção, muitas pessoas fornecem informações errôneas, em geral difíceis de serem retificadas, pela falta absoluta de elementos comprobatórios.

 

É bem provável que, entre os 182 centenários cariocas recenseados em 20 de Setembro de 1906, mais de um terço, talvez, não tenha atingido a idade de 100 anos. Ainda mesmo, porém, reduzindo à metade aquele número, o algarismo restante é muitíssimo maior do que o indicado, por exemplo, como o total dos macróbios da cidade de Buenos Aires, segundo recenseamento ali ocorrido em setembro de 1904.

 

Em Bueno Aires foram recenseados em 18 de Setembro de 1904 apenas 37 pessoas de mais de 100 anos, afirmando com a maior lealdade Alberto Martinez que "em nenhum caso foi possível obter documentos justificativos da edade declarada pelos centenários, não merecendo tampouco maior fé os testemunhos e as declarações prestadas pelas pessoas que os cercavam."

 

No Rio de Janeiro, terminada a operação censitária, a Comissão Central do Recenseamento procurou coligir também informações sobre os alistados com mais de 100 anos. Os esclarecimentos que obteve, conquanto deficientes, parecem justificar até certo ponto a idade avançada de grande número deles, o que se poderá verificar do resumo histórico relativo a cada um dos centenários.

 

Segue a relação das pessoas centenárias da Cidade do Rio de Janeiro, separadas por Distritos em que residiam, a qual acrescento notas e observações em letras itálicas.

Carlos Eduardo de Almeida Barata

 

DISTRITO DE SANTA RITA

Nota: O Distrito de Santa Rita traz sua origem na freguesia do mesmo nome, esta criada por Pastoral de 30 de janeiro de 1751, e confirmada por Alvará de 10 de maio de 1753. Foi instalada a sua sede, na Matriz de Santa Rita, edificada pela família Nascentes Pinto, antes de 1721. Foi seu primeiro pároco, o Padre João Pereira de Araújo de Azevedo, encomendado, desde 30 de janeiro de 1751, e 1.º colado, por carta régia de 29 de maio e provisão de 8 de agosto de 1753.

No ano de 1806, data que marcaria o nascimento exato destes centenários, administrava o rebanho da paróquia de Santa Rita, o Cônego Dr. José Caetano Ferreira de Aguiar, 3.º Colado da Paróquia de Santa Rita, nomeado por Carta Régia de 12 de dezembro de 1801, e provisão de 23 de Dezembro de 1802, e que permaneceu à frente da sua Paróquia até o de sua morte, em 27 de Julho de 1836. Foi Senador do Império desde 1826.

 

RITA DOS SANTOS, que disse ter 100 anos de idade (portanto nascida em 1806), então viúva, recenseada como africana, analfabeta, residente no morro do Valongo, número 15.

 

BENJAMIN GONÇALVES, que disse ter 104 anos de idade, viúvo, brasileiro, analfabeto, residente na Escola Naval. Nasceu na Cidade de Vitória, província do Espírito Santo, em 10 de Agosto de 1801. Casou-se duas vezes, tendo 2 filhos e 6 netos; o filho mais velho tinha 82 anos de idade (portanto nascido em 1823-1824) e o neto mais velho tinha 22 anos de idade (portanto nascido em 1883-1884).

Benjamin esteve na Guerra dos Farrapos com o General Pinto Peixoto. Esteve na campanha do Paraguai com o mesmo General e assistiu as seguintes batalhas: Tuiuti, Curupaiti. Curuzú, Itororó, Riachuelo, Humaitá, etc. Tem uma cicatriz no alto da cabeça feita pela coronha da carabina de um paraguaio, quando dormia em uma barraca do acampamento. Está forte, vê e ouve bem.

Nota: General José Maria Pinto Peixoto, nascido em 1786 e falecido em 05.05.1861. Brigadeiro Graduado.

 

DISTRITO DE SÃO JOSÉ

Nota: O Distrito de São José traz sua origem na freguesia do mesmo nome, esta criada por Pastoral de 30 de janeiro de 1751, e confirmada por Alvará de 8 de maio de 1753.

Foi instalada a sua sede, na Matriz de São José, edificada pelo ermitão Egas Muniz, antes de 1620, como simples ermida, depois reconstruída. Foi seu primeiro pároco, o Padre Antonio José Malheiro, por provisão de 30 de janeiro de 1751.

No ano de 1806, data que marcaria o nascimento exato destes centenários, administrava o rebanho da paróquia de São José, o Padre Inácio Pinto da Conceição, nomeado por provisão de 5 de junho de 1790, e que permaneceu à frente da sua Paróquia até o de sua morte, em 2 de outubro de 1810.

 

FLORINDA DA CONCEIÇÃO, que disse ter 100 anos de idade (portanto nascida em 1806), solteira, recenseada como portuguesa, analfabeta, residente na 26.ª enfermaria da Santa Casa de Misericórdia.

 

LUCRÉCIA BORGES, que disse ter 100 anos de idade (portanto nascida em 1806), solteira, recenseada como africana, analfabeta, residente na 26.ª enfermaria da Santa Casa de Misericórdia. Faleceu pouco depois, em 20 de Outubro de 1906, no mesmo Hospital da Santa Casa

 

DOLORES DIAS MORALES, que disse ter 101 anos de idade (portanto nascida em 1805), viúva, recenseada como espanhola, analfabeta, proprietária, residente na rua Evaristo da Veiga número 22, 1.º andar.

 

ROSA NUNES, que disse ter 104 anos de idade (portanto nascida em 1802), viúva, recenseada como portuguesa, sabendo ler e escrever, residente na rua Treze de Maio número 19.

Nasceu em Portugal, de onde veio há 15 anos (portanto, por volta de 1891). Foi casada só uma vez. Teve 10 filhos, dos quais o mais velho conta 68 anos de idade (portanto nascido cerca de 1837-1838). Sabe da existência de 10 netos, contando o mais velho 34 anos de idade (portanto nascido cerca de 1871-1872), de 11 bisnetos, contando o mais velho 11 anos de idade (portanto nascido cerca de 1894-1895)..

 

MARIA JOSÉ DO NASCIMENTO, que disse ter 100 anos de idade (portanto nascida em 1806), estado civil ignorado, recenseada como brasileira, analfabeta, residente na rua das Marrecas número 18.

Nasceu na Bahia, de onde veio bem criança para o Rio de Janeiro. Nunca teve filhos. Lembra-se da guerra das Sabinas na Bahia. Disse ter conhecido D. Pedro I. Vivia dos auxílios de uma Ordem religiosa. Via mal, ouvia bem e andava perfeitamente, Estava bem forte.

Nota: Guerra das Sabinas na Bahia. Refere-se a revolta que irrompeu na Bahia, durante o período regencial, após a demissão do Regente Feijó, substituído por Pedro de Araújo Lima. A rebelião teve início em 07.11.1837

 

ISABEL MARIA DA ANUNCIAÇÃO, que disse ter 100 anos de idade (portanto nascida em 1806), viúva, recenseada como brasileira, analfabeta, residente no morro de Santo Antonio (casa sem número).

Nasceu na Bahia. Foi casada duas vezes. Teve 5 filhos do primeiro marido, dos quais 4 morreram pequenos, vivendo apenas o mais velho na Bahia. Casou-se a primeira vez com 25 anos de idade (portanto por volta de 1831), vindo 15 anos depois (cerca de 1846), já viúva, para o Rio de Janeiro, isto muito antes da guerra do Paraguai. Devia ter 5 anos quando Tiradentes foi esquartejado (impossível, pois o esquartejamento ocorreu em 1792). Lembra-se das guerras dos Gafanhotos, Sabinas, Papagaio, Dois de Julho, Paraguai, etc. Vive num barracão, forrado de zinco e envolvido de cima a baixo por um tecido cipoal de favas e maracujás que a abriga da chuva e do frio. Mantém uma plantação de cana e vários legumes, cultivados por sua próprias mãos. É forte, V~e e ouve bem.

 

DISTRITO DE SANTO ANTONIO

Nota: O Distrito de Santo Antonio traz sua origem na freguesia do mesmo nome, esta criada por Decreto Imperial de 16 de Setembro de 1854. Foi instalada a sua sede, na Matriz de Santo Antonio, edificada por Antonio José de Souza e Oliveira, em 1811, e reedificada posteriormente. Foi seu primeiro pároco, o Cônego Quintiliano José do Amaral, único colado, por Carta Imperial de 29 de Maio e provisão de 8 de Junho de 1855.

No ano de 1806, data que marcaria o nascimento exato destes centenários, ainda não existia a freguesia de Santo Antonio. Suas terras então pertenciam a outras três freguesias: São José, Santana e Sacramento. Assim, em 1806, àqueles que nasciam nas terras que em 1906 formavam o Distrito de Santo Antonio, dependendo do endereço, eram fregueses de uma daquelas três freguesias.

 

FRANCISCA C. PEREIRA DA SILVA, que disse ter 105 anos de idade (portanto nascida em 1801), viúva, recenseada como brasileira, analfabeta, residente na rua da Ajuda numa casa que foi construída por ocasião da abertura da Avenida Central (o que aconteceu em 1905).

Foi casada com Luiz Jorge Rodrigues da Silva, voluntário da guerra do Paraguai. Vive de pensões que recebe das ordens de São Francisco e de São Pedro.

Nota: Por ocasião do nascimento de Francisca, por volta de 1801, não existia a Freguesia de Santo Antonio, criada apenas em 1855. As terras que formaram a freguesia de Santo Antonio foram desmembradas de outras três freguesias: São José, Santana e Sacramento.

 

ANA ROSA DE LIMA, que disse ter 107 anos de idade (portanto nascida em 1799), viúva, recenseada como brasileira, sabendo ler e escrever, residente na rua Frei Caneca número 111 e, pouco depois, mudou-se para a rua Americana número 16.

Nasceu em Maceió, Alagoas. Tem 2 filhos, ambos alistados nas fileiras do exército. Um deles se achava, em 1906, no Asilo da Velhice Desamparada.

Nota: A rua Americana fica no Engenho Novo. Teve o nome de rua São Joaquim, começava na rua Cachambi e terminava em um morro, na Estação Férrea do Méier.

O Asilo da Velhice Desamparada, atual Casa de São Luís, foi fundado em 25 de agosto de 1890 pelo Comendador Luís Augusto Ferreira de Almeida, depois Visconde de Ferreira de Almeida, na Rua General Gurjão, próximo à General Sampaio (Caju), freguesia de São Cristóvão.

 

MANUEL FRANCISCO DOS SANTOS, que disse ter 100 anos de idade (portanto nascido em 1806), ainda casado, recenseado como brasileiro, analfabeto, residente na praça de Dona Antonia número 22 (estalagem).

Nasceu em Sergipe e residia no Rio de Janeiro há 40 anos (portanto desde cerca de 1866). Fala bem e tem feições simpáticas; deseja acabar seus dias no lado da sua companheira. Foi durante muito tempo alfaiate e cozinheiro; em 1906 encontrava-se completamente cego.

Nota: A praça Dona Antonia ficava na dita Freguesia de Santo Antonio, localizada à direita da rua de Paula Matos, próxima à rua Frei Caneca.

 

GUILHERME, que disse ter 115 anos de idade (portanto nascido em 1791), ainda casado, recenseado como italiano, analfabeto, negociante, residente na rua Visconde do Rio Branco, número 20.

 

DISTRITO DO SACRAMENTO

Nota: O Distrito do Sacramento tem origem no curato do Santíssimo Sacramento da Sé, este criado em 1676. Foi instalada a sua sede, na Igreja Matriz de São Sebastião do Morro do Castelo, até que esta ficou em ruínas, passando a funcionar, alternadamente, nas Igrejas de São José, da Santa Cruz dos Militares e do Rosário. Em virtude de provisão de 1 de abril de 1816, mandou-se edificar a Igreja do Santíssimo Sacramento, expressamente para sede do Curato, e inaugurada pela benção solene, em 4 de Junho de 1820. Por ocasião da criação do curato da Sé, estava à frente da sua administração o Padre Dr. Francisco da Silveira Dias, que ali permaneceu até 1685. Quando da benção da nova Igreja do Santíssimo Sacramento, estava à frente da sua administração o Cura José Luiz de Freitas, nomeado por carta régia de 4 e provisão de 15 de junho de 1821, e ali permaneceu até a data de seu falecimento, em 7 de dezembro de 1846.

No ano de 1806, data que marcaria o nascimento exato destes centenários, administrava o rebanho do curato da Sé, Dr. Antonio Rodrigues de Miranda, Cônego Cura por Carta Régia de 19 de setembro de 1795 e provisão de 22 de fevereiro de 1796, e que permaneceu à frente do Curato até o de sua morte, em 13 de abril de 1831.

 

DELFINA MARIA DA CONCEIÇÃO, que disse ter 100 anos de idade (portanto nascido em 1806), solteira, recenseado como africana, analfabeta, residente na rua General Câmara, número 311.

Veio da África para a Bahia com cerca de 15 anos de idade (ou seja, por volta de 1817). Dois anos depois passou para o Rio de Janeiro, exercendo desde então a profissão de cozinheira. De três anos para cá (ou seja, desde 1903) dedica-se a vender plantas, cestas, roseiras, etc,; e faz ponto sempre em uma das portas do armazém 96 da rua Marechal Floriano Peixoto da firma Braga Dias & C.; estes senhores a estimam muito. É ainda forte, anda, vê e ouve perfeitamente.

Nota: A rua General câmara não existe mais, foi absorvida com a abertura da Avenida Presidente Vargas, em 1945.

 

MARIA DE JESUS, que disse ter 100 anos de idade (portanto nascido em 1806), solteira, recenseado como africana, analfabeta, também residente na rua General câmara, número 255.

Nota: A rua General câmara não existe mais, foi absorvida com a abertura da Avenida Presidente Vargas, em 1945.

 

DISTRITO DE SANTA TERESA

Nota: O Distrito de Santa Teresa não tem origem em uma freguesia, na verdade, suas terras pertenceram a duas antigas freguesias: São José e Santo Antonio, ambas citadas acima, com seus respectivos párocos.

O Decreto com força de lei n. 434, de 16 de junho de 1903, dividiu o território do então Distrito Federal em 25 distritos numerados e denominados. Originou-se daí o 6.º Distrito de Santa Teresa, constituído pela parte mais elevada do distrito da Glória, do 2.º distrito de São José, de Santo Antonio e Espírito Santo..

Assim, no ano de 1806, data que marcaria o nascimento exato destes centenários, aqueles que nasceram em terras do Distrito de Santa Teresa, dependendo do endereço, eram fregueses de uma daquelas duas freguesias: São José e Santo Antonio.

 

MARIA DA CONCEIÇÃO, que disse ter 100 anos de idade (portanto nascido em 1806), solteira, recenseado como brasileira, analfabeta, residente na ladeira dos Guararapes, número 10. Nasceu no Rio de Janeiro. Está forte, ainda vê e ouve bem.

Nota: A Ladeira dos Guararapes, apesar de estar aqui cadastrada como Distrito de Santa Teresa, pertencia, nesta ocasião, à freguesia da Glória, da qual se falará adiante. Chamou-se outrora ladeira de Pendura-Saia.

 

RAIMUNDA BENEDITA, que disse ter 102 anos de idade (portanto nascido em 1804), solteira, recenseado como brasileira, sabendo ler e escrever, residente na travessa Santa Cristina, número 119.

Nota: A Travessa Santa Cristina, apesar de estar aqui cadastrada como Distrito de Santa Teresa, também pertencia, nesta ocasião, à freguesia da Glória, da qual se falará adiante. Foi aberta em 1852.

 

CUSTÓDIA DOS SANTOS, que disse ter 130 anos de idade (portanto nascido em 1776), viúva, recenseado como brasileira, analfabeta, residente na rua Monte Alegre, número 47.

Nasceu em Santa Catarina. Depois de residir mais de 40 anos nessa cidade, veio para o Rio de Janeiro (depois de 1816), onde exerceu a profissão de cozinheira e lavadeira. Ainda com dificuldade, vê e ouve bem.

Nota: Conforme ficou dito acima, o território do Distrito de Santa Teresa, neste tempo, se espalhava por duas antigas freguesias: São José e Santo Antônio. A rua Monte Alegre pertencia à freguesia de Santo Antonio. Já estava aberta em 1859.

 

BENEDITO DOS SANTOS, que disse ter 100 anos de idade (portanto nascido em 1806), solteiro, recenseado como brasileiro, analfabeta, profissão ignorada, residente na rua Aqueduto, número 65 A.

Nasceu em Pernambuco. Depois passou para o Rio de Janeiro e esteve algum tempo em Santa Maria Madalena, na província do Rio de Janeiro. Trabalho sempre na lavoura. Há três anos (ou seja, desde 1903) está morando na casa de João da Silva Batista. Ainda é bastante forte, ouve e vê muito bem. Anda com muita dificuldade, porque sofre de uma afecção cutânea dos pés.

Nota: Conforme ficou dito acima, o território do Distrito de Santa Teresa, neste tempo, se espalhava por duas antigas freguesias: São José e Santo Antônio. A rua Aqueduto, por sua extensão, cruza as duas freguesias. Tem hoje o nome de rua Almirante Alexandrino.

 

DISTRITO DA GLÓRIA

Nota: O Distrito da Glória traz sua origem na freguesia de Nossa Senhora da Glória, esta criada pelo Decreto Imperial de 9 de agosto de 1834. Foi instalada a sua sede, na Matriz da Glória, reconstruída em 1818, pela rainha D. Carlota e reparada em 1835; e novamente construída em 1842, no hoje largo do Machado. Foi seu primeiro pároco, o Cônego Joaquim de Melo Castelo Branco, encomendado, por provisão de 27.02.1835.

No ano de 1806, data que marcaria o nascimento exato destes centenários, ainda não existia a freguesia da Glória. Suas terras então pertenciam a freguesia de São José, já mencionada acima. Assim, em 1806, àqueles que nasciam na Glória, eram fregueses de São José, e administrava o rebanho da paróquia de São José, o Padre Inácio Pinto da Conceição, nomeado por provisão de 5 de junho de 1790, e que permaneceu à frente da sua Paróquia até o de sua morte, em 2 de outubro de 1810.

 

SERAFINA DA CONCEIÇÃO, que disse ter 100 anos de idade (portanto nascida em 1806), solteira, recenseada como brasileira, analfabeta, residente na rua do Catete, número 1-A.

 

SILVANA, que disse ter 100 anos de idade (portanto nascida em 1806), solteira, recenseada como brasileira, analfabeta, residente na rua Benjamin Constant, número 15.

 

MARIANA DA CONCEIÇÃO, que disse ter 101 anos de idade (portanto nascida em 1805), viúva, recenseada como brasileira, analfabeta, residente na Praia do Flamengo, número 10.

Nasceu em Angra dos Reis e aos 15 anos (ou seja, cerca de 1820) casou-se ali com Manuel Gregório de Noronha, já falecido há 30 anos (ou seja, por volta de 1876). Teve 20 filhos, dos quais 6 gêmeos e produtos de 3 partos duplos com crianças vivas. Dos filhos só existe um do sexo feminino, com quem está vivendo; todos os outros faleceram. Tem vivos 9 netos, 11 bisnetos e 2 tataranetos. Há já 20 anos que veio para o Rio de Janeiro (ou seja, cerca de 1886). Vê muito pouco, está forte, ouve e anda bem.

 

ROSA MARIA DE JESUS, que disse ter 100 anos de idade (portanto nascida em 1806), solteira, recenseada como brasileira, analfabeta, residente na Rua Nery Ferreira, número 53. Residiu muitos anos em São João del Rei, província de Minas Gerais. Está forte, ouve, vê bem, mas anda com dificuldades.

 

LEANDRA MARIA DA CONCEIÇÃO, que disse ter 100 anos de idade (portanto nascida em 1806), viúva, recenseada como africana, sabendo ler e escrever, residente na Rua Alice, número 11 A (estalagem). Morou algum tempo na Bahia.

 

MARIA DO BOMFIM, que disse ter 106 anos de idade (portanto nascida em 1800), solteira, recenseada como africana, lavadeira, analfabeta, residente na Rua Bento Lisboa, número 36 (estalagem). A sua descendência resume-se em 7 filhos e 3 netos. Faleceu pouco depois, em janeiro de 1907.

 

MARIA LUIZA, que disse ter 106 anos de idade (portanto nascida em 1800), solteira, recenseada como brasileira, analfabeta, residente no Beco do Rio (casa sem número).

Nota: O Beco do Rio, nesta época, começava na praça da Glória e terminava na rua Barão de Guaratiba (atual rua Orlando Rangel).

 

CONTINUAÇÃO DO ARTIGO - CARIOCAS BICENTENÁRIOS II

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Por Carlos Eduardo Barata

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