MESTRE DE OBRAS - II
[Estes antigos Arquitetos]
CONSTRUTORES DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO
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II
BRASIL
Durante os primeiros anos do Brasil colônia, a profissão de arquiteto não era bem definida, sendo todas confiadas a práticos leigos ou não. Na maioria dos casos, informa P. Bardi, importavam-se da Europa as plantas, os mestres-de-obras, os engenheiros militares e os arquitetos, que não vinham só de Portugal, mas também da Itália. O esforço destes construtores, como era de se esperar, em vista das constantes ameaças à invasões por parte de franceses e holandeses, concentrou-se na construção de fortificações, fundindo e confundindo, a função do arquiteto com a do engenheiro militar, e vice-versa. Estes arquitetos ou construtores de fortalezas, tão necessários à defesa do nosso imenso território, foram, ao que se supõe, numerosos, no entanto, tal qual a Roma Imperial, ficaram ocultos no anonimato.
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" A profissão de arquiteto foi oficialmente exercida no Brasil desde as primeiras épocas por Mestres de obras do Rei e por Pensionistas de arquitetura, trazidos do Reino de Portugal. Também a exerceram os Engenheiros fortificadores formados em Lisboa ou nas escolas de fortificação do Brasil. E ao lado destes havia os Mestres de obras e os Mestres do risco, denominação, esta última, preferentemente concedida aos empíricos que sabiam desenhar. Sucedia, entretanto, que esse Mestres e seus discípulos não eram somente arquitetos. A exemplo dos Maeses espanhóis, dos Mestres lusitanos e do "Maître d'oeuvre", gaulês, eles exerciam muitas outras profissões. Eram desenhistas, construtores, canteiros, decoradores, entalhadores, torêutas, pintores, joalheiros e ourives, ao mesmo tempo. Isso decorria das necessidades sociais da época, da deficiência de profissionais habilitados e da falta de escolas especializadas.
Era por meio do empirismo da adaptação imitativa e de receitas, que os profissionais ficavam formados. É bem verdade que sua preparação era às vezes melhorada pelas lições práticas de algum engenheiro fortificador, de um verdadeiro Arquiteto jesuítico, ou por meio das lições de desenho, de geometria e de arquitetura civil proporcionadas nas aulas de fortificação da Bahia e do Rio de Janeiro.
(Morales de Los Rios Filho)
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A participação direta e oficial dos arquitetos lusitanos, em terras brasileiras, teve princípio em 1549, com a vinda do Governador Geral Thomé de Souza, que aportou na Bahia, em companhia de um grupo de profissionais construtores, que traziam ordens do Rei de Portugal, D. João III, para se aplicarem na construção de uma fortaleza de pedra e cal e de uma Cidade grande e forte. Estes mais antigos mestres que participaram do princípio da história da arquitetura no Brasil, foram:
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LUIZ DIAS - Arquiteto. Mestre das Obras da Fortaleza. A provisão de mestre de obras da cidade de Salvador, foi dada em Almerim, a 14.01.1549. Retornou à Portugal, em 1551, ficando por seu sucessor Pedro de Carvalhais, nomeado Mestre de Obras de Salvador, em 07.1552, com o Ordenado anual de 20$000 réis.
DIOGO PEREZ - Mestre de Obras. Mestre Pedreiro. Sobrinho do anterior. A provisão de mestre pedreiro da cidade de Salvador, foi dada em Almerim, a 14.01.1549.
PEDRO GÓIS - Mestre Pedreiro. Arquiteto
MIGUEL MARTINS - Mestre de fazer cal.
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No Rio de Janeiro, os mais antigos artífices documentados, até o momento, foram os Mestre de Obras NUNO GARCIA, e o Serrador ANDRÉ FERNANDES- Ambos documentados em 1567. O Arquiteto mais antigo, data de 1573 - o Arquiteto Jesuíta AFFONSO BRAZ(1524-1610). Os mais antigos Carpinteiros, todos da Ribeira, foram documentados em 1571: SIMÃO FERNANDES, ANTONIO DE FRIAS e JOÃO GOMES. O mais antigo pedreiro, foi documentado em 1573: JOÃO RIBEIRO.
Em Pernambuco, entre os antigos, registra-se o Mestre PedreiroPEDRO ALVARES [1557-d.1636], que esteve a Bahia em 1586, e no Rio de Janeiro, em 1589. Em 1596, atuava como Mestre de Obras da Igreja do Colégio dos Jesuítas de Olinda, Pernambuco.
Em Sergipe, entre muitos, o carpiteiro JOSÉ DE TORRES [1642-1704]. No Maranhão, o Arquiteto MANUEL DA SILVA [1628-1705] . Etc.
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OS RELIGIOSOS
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Por muitos anos, sofreu o Brasil, no seu primeiro século de existência, notável interferência das ordens religiosas, que para cá enviaram os mais importantes mestres (magister) da arte de riscar, traçar, projetar, construir e executar obras.
Sobre esta incontestável importância dos religiosos na construção do Brasil, as ordens Jesuítas e Beneditinas, foram merecedoras de dois magistrais autores - Serafim Leite, S. I e Clemente da Silva Nigra, que nos deram informações definitivas sobre as atuações dos religiosos como Mestres Construtores de nossas Cidades:
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1) Serafim Leite, S. I: - "As artes de construção foram as primeiras que os Jesuítas exerceram no Brasil, por necessidade local. Na Europa, grandes arquitectos profissionais se incumbiram das suas Igrejas e Colégios e sabe-se que Miguel Ângelo se ofereceu a S. Inácio para o desenho da Igreja do Gesù, que depois fez Vignola. Mas o Brasil, ao chegarem os Portugueses, era um imenso sertão florestal, sem cidades, nem vilas, nem artes liberais, e os jesuítas em 1549 para residir tiveram que construir casa, igreja para rezar, escola para ensinar; e, por suas próprias mãos, com materiais pobres, paus, terra ou barro amassado, e palha, fizeram de Miguel Ângelo e de Vignola em casas que duraram três anos.
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A importância que os Jesuítas tiveram para a história da arquitetura, tanto no Brasil como em Portugal, mereceram dois belíssimos estudo, e não poderia ser de outra maneira, um do saudoso mestre Paulo F. Santos, e outro do grande mestre Lúcio Costa:
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"Para dar forma material e orgânica a tudo isso - ao colégio, à casa, à residência, ao seminário, à quinta de repouso, ao hospício, ao recolhimento, ao hospital, ao noviciado, à fazenda, ao engenho, ao curral - fizeram-se eles mestre de obras, arquitectos, engenheiros, e de boa categoria o foram: no erguer edificações e pontes; ao rasgar caminhos; no delimitar, sanear e irrigar terrenos; no represar águas; no organizar indústrias (olarias, têxteis, serrarias, ferrarias, engenhos de moagem, estaleiros); no construir guindastes e planos inclinados; no fabricar toda a sorte de apetrechos e máquinas que os seus estabelecimentos exigiam. Contavam-se igualmente entre eles, mesmo entre os principais, numerosos oficiais mecânicos que trabalhavam directamente os materiais: carpinteiros, pedreiros, entalhadores, canteiros, cavouqueiros, oleiros, caieiros, serradores, ferreiros, torneiros, marceneiros, pintores de parede, douradores, ourives. E ainda: escultores, pintores, músicos, poetas, com que, em obediência ao seu programa e a serviço de Deus, atendiam também a reclames de outra índole, de sua sensibilidade e de seu espírito."
(Paulo Santos)
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Também referiu-se a importância dos Jesuítas para a história da arquitetura brasileira, o Prof. Pietro Maria Bardi, em seu artigo "A Arquitetura Brasileira", especialmente preparado para ao livro de Leonardo Benévolo - "Introdução à Arquitetura":
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"ARQUITETURA MISSIONÁRIA - A arquitetura num sentido que direi "artístico", foi preocupação constante das primeiras Missões, particularmente dos jesuítas. Cultos e ambiciosos, sabiam que a construção das igrejas servia de base à catequese, desempenhando, ao mesmo tempo, as tarefas religiosas e manuais. Improvisavam-se pedreiros, entalhadores e pintores com a maior naturalidade. Alguns já tinham aprendizado, particularmente os que haviam participado de construções ou de outros ofícios na Europa. Começaram a construir: pau-a-pique e sapé. (...)
Na Bahia, então, funda-se Salvador: o povoado é de um milheiro de homens: seiscentos colonos degredados, uns trezentos soldados com 'música de trombetas e tambores' e o restante 'mecânicos': pedreiros, caieiros, taipeiros, carpinteiros 'de casas', serradores, calafateiros, ferreiros e oleiros. Eram estes os artistas que iam se unir aos improvisados."
(Bardi, A Arquitetura Brasileira, 234-235)
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Além dos Jesuítas e dos Beneditinos, os Franciscanos também tiveram sua importância na arquitetura brasileira. Para o Rio de Janeiro, alguns deles foram documentados por Frei Diogo Freitas, O. F. M., que faz inúmeras referências as obras de arquitetura realizadas por seus antecessores sem, no entanto, em alguns verbetes, caracterizar os autores das obras, indicando, somente, que as dirigiu; por exemplo:
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I. Fr. Antônio da Madre de Deus, Ir. Confessor, falecido em 1621. - Eleito em 1612, foi presidente do Convento de Santo Antônio do Rio de Janeiro durante dois annos e poucos mezes. Fez muito para adiantar as obras do convento juntamente com o irmão leigo Fr. Antônio do Rosário, que a começara e executava. - Falleceu no dito Convento de Santo Antônio no anno de 1621.
II. Fr. Paulo de Santo Antônio, Ir. Preg., f. em 1650. - Recebeu o habito seraphico no Convento de S. Francisco da cidade da Bahia e professou aos 25 de Setembro de 1599, quando tinha mais de vinte annos de edade. - Em Agosto de 1639, foi eleito guardião do Convento de S. Francisco da Victoria. Durante o seu governo, fez o encanamento de água para o convento; pôs azulejos na Egreja; fez a sacristia e o calçamento do caminho que a ella conduz. Terminado o seu guardianato, passou-se para a Ermida da Penha, onde, em companhia de Fr. Francisco da Madre de Deus, deu começo a reunir os materiaes para as obras do futuro conventinho do sanctuario de Fr. Pedro Palacios, em que concluiu os dias de sua vida no referido anno de 1650.
III. Fr. Bento, Ir. Leigo. - Era morador do Convento de Nossa Senhora do Amparo do Bairro de S. Francisco, em S. Sebastião. - Não conhecendo officio algum quando entrou na Ordem, tornou-se depois mui entendido em obras de pedreiro e carpinteiro. Trabalhava na Egreja nova daquelle convento, quando afogou-se a enseada chamada dos castelhanos.
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2) Fr. Antônio de Santa Maria Jaboatão, em 1761, dedicou-se quase que exclusivamente à atuação dos Franciscanos, desde o Espírito Santo ao Pernambuco - Conventos de Senhora das Neves da Vila de Olinda, de N. P. S. Francisco da Cidade da Bahia, de Santo Antônio da Vila de Iguaraçu, PE, de Santo Antônio da Cidade da Paraíba, e da Vila de Vitória na Capitania do Espírito Santo; exemplos:
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I. O. M. R. P. Fr. Francisco dos Santos, eleito no anno de 1608 em a Congregação celebrada em a Casa de N. S. do Amparo. (...) Não haverão no seu tempo novas fundaçõens; mas nas que o estavão já crescerão em grande maneira as fabricas, traçadas pela sua idéa, que a tinha para isso muy singular, e ajustada, sem que estes materiaes divertimentos pudessem embaraçar o vigoroso do seu espirito para cuidar na guarda, e perfeição do estado Religioso ..."
II. O. M. R. P. Fr. Antônio de Braga, Prégador ... Sendo eleito no anno de 1623 ... Achou os Conventos das partes do Sul bastante turbados com a introdução dos Holandezes na Bahia; ... ordenou se fabricasse huma cisterna com a agoa da qual se pudesse acudir a este incoveniente. (...) He obra muy especial pela sua architectura, e solido fundamento. Tem seus registros, que cahem em poço muy bem feito, e com hum lavatorio, tudo de forte abobada onde lavão os Religiosos as suas roupas de tunicas, e habitos. Não se fabricou no Claustro do Convento, porque, além de ser pequeno, temerão-se, que com a cava, que se fizesse, se poderião arruinar os seus fundamentos, por estar feito, quando se intentou esta obra, mas plantarão-na da parte de fóra, que olha para o mar, entre o canto, que faz o corredor, que forma a claustra de Nascente a Poente, e outro, que se levantou de novo, e faz ponta, e travessa para o Sul, e barra do Recife."
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Finalmente, referindo-se a participação das ordens religiosas, em geral, na construção dos seus primeiros edifícios, escreveu Arthur B. Gallion, em sua obra "The Urban Pattern" (London, New York, Toronto, 1950):
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"Os abades e os artesãos eram sensíveis à forma e aos materiais dos edifícios que eles erigiam (isto é também verdadeiro para os Padres - jesuítas, Franciscanos, Beneditinos, Carmelitas - e para os mestres construtores e engenheiros militares, do Brasil Colonial). Sob a orientação deles tinha-se cuidado na localização das estruturas da cidade e sua relação. Os edifícios assumiam um caráter funcional, tanto quanto à forma como quanto à localização. Não eram construídos para serem "pitorescos"; esta qualidade emergia da consideração dada aos edifícios da cidade pelos seus construtores. Acidentes de vista e contrastes de forma e cor resultavam de contornos da terra (da topografia local) e da engenhosa selecção dos sítios para cada estrutura. A posição de comando da catedral ou igreja dava uma singular unidade à cidade, uma unidade acentuada pelo envoltório horizontal dos seus muros circundantes."
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RIO DE JANEIRO - Seque no próximo artigo [III], ainda os Mestre de Obras e suas atuações no Rio de Janeiro.
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Por Carlos Eduardo B