.
Dar tempo para Ser
.
.
.
Leblon, 13.04.2003
Para se dar tempo de apreciar;
Para se dar tempo de ver;
Para se dar tempo de respirar
Para se dar tempo de Ser e, na falta de tempo, não Ser.
No último Domingo, dia 13 de Abril, fiquei no Rio de Janeiro e, ao entardecer, na minha ida à Ipanema, a fim de visitar meus pais, mais uma vez deparei com um belo entardeder, já na trecho Niemeyer-Leblon, com uma pequena ressaca nas praias do Leblon e Ipanema.
.
.
Para se dar tempo de apreciar:
* uso o "se dar", propositadamente, pois, naquele momento, vi que poderia, mais uma vez, apreciar minha ou nossa natureza humana, em comunhão com a beleza oferecida pela natureza da terra.
.
Assim, não pude deixar de desviar-me do encontro familiar e, decididamente, me dar tempo para apreciar, para ver e para respirar o mar que lambia, com fúria, as areias do Leblon e de Ipanema, no fim de tarde.
Ao invez de dobrar na rua Ataulfo de Paiva (Leblon) - já que o acesso à Praia fica impedido aos Domingos - fiz o movimento inverso e, retornando pela Visconde de Albuquerque, subi a velha ladeira que me levaria ao Mirante do Leblon.
.
São nestes momentos que uma mudança de percurso faz a diferença: tinha a certeza de que me encontraria, novamente, com o brilho da nossa Cidade, enfim, mais um encontro com um belo.
Ao chegar no novo e saboroso destino, onde registrei a imagem acima, sentei-me, por muitos minutos, meditando ao som das ondas "ressacadas", que batiam logo abaixo.
.
Nesta viagem astral, o tempo passou para outra dimensão, e percebi que, ao meu lado, estava sentado o nobre Emmanuel Hippolyte Charles Toussaint Leblon de Meyrach, mais conhecido por Carlos ou Charles Leblon.
- Que diabos estaria agora fazendo ele, no Mirante que leva seu nome ?
.
Veio repetir o que vinha fazendo desde tempos passados, por volta de 1870, quando adquiriu terras na antiga Praia da Restinga. Mostrei-lhe no visor da digital a imagem que havia captado (acima), a fim de registrar aquele momento para gerações futuras.
.
Leblon olhou, apreciou e respondeu-me:
.
- O por do sol na Restinga continua "très bel". Também tenho uma imagem para oferecer a estas mesmas gerações futuras. Não tenho uma máquina fotográfica, porém, trago gravado em meus olhos o que foi o meu Campo, o que foi o meu Tempo, o que é a minha Memória, e o que sempre será a eternidade de uma imagem:
.
Nascido em 1804, em Marseiler, nosso franco-leblonense chegou a ser proprietário de parte das terrras que formam o Arpoador, vendidas depois, diretamente, por ele, ao barão de Ipanema, que almejava fundar alí uma Vila, que denominou, em 1894, de Ipanema.
Leblon já se encontrava no Rio de Janeiro nos anos 30 do século XIX e, como muitos destes antigos franceses, como Grandjean, Taunay, entre outros, casou com uma brasileira, descendente da velha aristocracia de Jacarepaguá, apesar do Leblon ter casado em Niterói.
Depois de longa prosa, muita meditação, muito contato com o apreciar, com o ver e, com o respirar, o tempo passou de forma leve e duradouro, restando-nos a certeza de Ser e, somente Ser.
.
Percebemos, então, que o sol já se escondia por tráz dos Dois Irmãos. Não deu para resistir, pedi licença ao Leblon, e registrei estes últimos momentos de luz, que vai dos Dois Irmãos ao Arpoador:
.
Cau Barata