.


.

Há 133 anos atrás

Em busca do Elo Perdido - Uma nova história

Parte II

.

.

.

Passadas algumas horas na espera do melhor momento para partida da nossa expedição, isto após ouvir depoimentos diversos dos nossos seculares Guias: Paulo/Archer, Viegas/Escragnolle e Benjamin Mary, a nossa Rainha dos Gigantes de quatro rodas das Matas, ao lado do observador Duende das caminhadas, preparou um dos seus gigantes para nos conduzir para a Selvagem Mata.





Enquanto esperávamos os demais expedicionários, que arrumavam suas mochilas, seus facões, suas roupas e suas capas, vimos que a chuva havia passado, o que, para nós, tornaria mais fácil o desbravamento da fechada Mata.

.

Nos dias de hoje, pensaram alguns, uma chuva desta poderia levar tudo a perder, pois quem garante que não ocorra um desmoronamento diante de nós. Assim, ansiosos por respostas e maiores conhecimentos sobre a estrada que o Gigante de Rodas nos levaria, não demos chance do nosso adinistrador e Guia da expedição Paulo ficar calado, e fomos logo perguntando sobre as condições das estradas.

.

E, como era de se esperar, novamente baixou o santo no homem, que desandou a falar e, novamente, com o espírito do Major Archer, começou a nos descrever a situação do terreno, naquele ano de 1872, que precede em pouco a construção das represas que íamos procurar:

.

A Estrada que liga o Jardim Botânico ao Alto da Boa Vista, neste anno de 1872, sofreu desmoronamentos com as grandes chuvas. Por ser muito pouco transitada, insignificante incômodo causaram esses acidentes.

.

E, mesmo sem dar muita "corda", o Major Paulo/Archer, já no princípio do anno de 1873, foi logo se explicando:

Ilmo. Sr.

Encarregado por V.S. em fevereiro do anno proximo passado das obras dos predios nacionaes da floresta, conservação do encanamento provisorio de Antonio Joaquim de Almeida, abertura e conservação dos caminhos entre o alto da cascatinha e floresta, e igualmente de fiscalizar as obras de arte e conservação da 1.ª, 2.ª e 3.ª secções da estrada da Cascatinha, Cachoeira e Jardim, até a mesa do imperador: no desempenho, pois, desse dever passo a expor a V.S. o resumo dos diversos trabalhos executados nessas obras no correr do anno proximo passado.

As obras de empreitada com João de Almeida Pedroso foram as seguintes: Na estrada que do alto da Boa-Vista da Tijuca se dirige á ponte da cahoeira, abaúlou-se 1115m correntes sobre a média de 6,60m de largura na que segue para o Jardim Botânico até a mesa do imperador 4840m correntes sobre a média de 6,60m collocando-se 144m correntes de boeiros e 900m quadrados de sargeta; na 3.ª secção da estrada da cascatinha abaulou-se 260m correntes com a média de 6,60 m de largo, assentou-se 4 boeiros medindo 53,30m correntes e fez-se 321m quadrados de sargeta; finalmente conservaram regularmente 8300m correntes de estrada.

A conservação a cargo de Felix Emílio Taunay, consta de 823m correntes sobre a média de 6,60m de largo na 1.ª e 2.ª secções da estrada da Cascatinha. Esta conservação foi constante e regular.

Floresta da Tijuca, em 14 de Março de 1873

O Administrador Manoel Gomes Archer.

.

Certamente, quase ninguém entendeu nada do que ficou dito. Paulo Lynch é o próprio reflorestamento; fala como se fosse uma das mudas, saídas das sementeiras do velho Archer, e dela brotam folhas de culturas que, com muita sabedoria e conhecimento, nos deixa sempre a par de tudo que aconteceu nesta Floresta, como se fosse na própria época.

Pedimos ao Major Paulo/Arche um descanso na sua explanação, e pausa para mais uma fortografia, moderna, dos expedicionários, ao lado do Gigante de Quatro Rodas das Matas:

Da esquerda para a direita: 1. O Major Paulo - Archer; 2. Wal - a mensageira da Floresta; 3. Mabel - a anfitriã da Floresta; 4. Renata - os mil sabores da Mata; 5. Viegas - o barão de Escragnolle; 6. A Bela rainha dos Gigantes de quatro rodas das Matas; e 7. André, o Duende das caminhadas.

Pé na Estrada, melhor dizendo, Gigante na Estrada



Sobre as Estradas, em 1873, relatou o Major Paulo / Archer:

Deu-se começo ao mecadamisamento da parte da estrada, eemprehendida entre Boa-Vista e Cachoeira, ficando concluida aextensão de 614 metros.

Na parte da mesma estrada, em direcção ao Jardim Botanico, foram construídos 2571 metros quadrados de sargetas, 197,3 metros cubicos de boeiros e 523 mwetros de banquetas, e aterrados 6.508,5 metros cúbicos em differentes logares.

Enquanto seguíamos pela velha Estrada, a Rainha dos Gigantes de Quatro Rodas da Mata, entrou em transe e, meio que perdida no tempo, pediu ajuda ao seu consorte, o André Duente das Caminhadas que, retornando, não se sabe como, no tempo, deram de cara com três antigos Gigantes de Quatro Rodas, também transitando pelas velhas estradas da Floresta da Tijuca, conforme se lê no alto da imagem que se projetou nas nuvens:

.

Os Gigantes de Quatro Rodas da Floresta que antecederam a Jeep Tour, em 1903

.

CHEGANDO NA TRILHA

Já próximos do ponto inicial da nossa exploração, com o tempo e a hora avançando, os expedicionários pararam para ouvir nosso Guia, também avançando no recuado ano de 1872 e, pulando para 1874, continuou sua narrativa sobre os acontecimentos e a situação da estrada naquela ocasião:

As chuvas torrenciaes que tiveram lugar nos mezes de Abril e Maio de 1874 produziram consideraveis estragos nas estradas, cuja conservação acha-se a cargo da Inspectoria das Obras Publicas. Os maiores estragos derão-se na serra da Tijuca.

Na Estrada da Boa-Vista da Tijuca ao Jardim Botânico, passando pelo logar denominado a Mesa do Imperador - Removeram-se consideraveis massas de terra produzidas por desmoronamentos dos córtes e encheram-se as depressões produzidas pelas enchurradas, rearando-se outros estragos havidos em differentes logares e aperfeiçoando-se o abáulamento do leito. Não sendo macadamisada exige esta estrada continuadas reparações no leito, apezar do pouco transito quue nella tem logar.

Enquanto ouvíamos a narrativa, o Gigante de Quatro Rodas chegou no início de nossa trilha; no início de nossa expedição; no início da Floresta, onde tudo que vemos, é o início e, depois, o depois, ninguém mais sabe dizer, podendo não haver mais fim, e nos perdermos, finalmente, no velho mundo de Archer, de Escragnolle, de Taunay, e de Mary.



.

UM ENCONTRO MEMORÁVEL

Poucas são as oportunidades de vermos, em ação, lado a lado, o Major Paulo -Archer e o barão Viegas-Escragnolle - uma imagem que merece entrar para os anais da História.



Cabe lembrar que o barão de Escragnolle (Viegas), sucedeu ao Major Archer (Lynch), na administração da Floresta da Tijuca. Assim, já que conseguimos esta imagem da encarnação de ambos, lado a lado, porque não terminar esta segunda parte, lendo o depoimento que Escragnolle deixou, no ano de 1874, sobre seu amigo Archer:

"Ao tomar posse do lugar de Administrador d'esta floresta, uma das cousas que mais me impressionaram foi considerar as difficuldades com que teria de lutar o meu muito digno antecessor, o Sr. Manoel Gomes Archer, para obter, com tão diminuto pessoal, tão mal remunerado e em terreno tão ingrato como o da Tijuca, o resultado que apresentou ao deixar este estabelecimento.

A sua activa e intelligente administração, que será sempre lembrada, facilitou a minha tarefa pois encontrei os viveiros amplamente providos de plantas preciosas, já mudadas e de grande cópia de outras que mandei passar para os cestinhos afim de substituir as que são definitivamente plantadas nas mattas.

(Escragnolle - Julho de 1874).

Cau Barata

.