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BELÉM DO GRÃO-PARÁ E SUAS RUAS

1616-1910

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PARTE I

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O presente artigo não traz à luz novas informações nem uma pesquisa sobre as origens da Cidade de Belém. Aproveitando a velocidade da comunicação via Internet, atingindo leitores nos quatro cantos do mundo, optei em oferecer algumas informações referentes a origem da Cidade de Belém, através de suas ruas.

Assim, não se trata de uma pesquisa, e sim uma copilação de dados tomados de alguns dos grandes autores da história paraense, entre eles: Antonio Ladislau Monteiro Baena, Manuel Barata, Corrêa Pinto, Ernesto Cruz e Augusto Meira Filho.

Em seguida a fundação da Cidade do Pará [Belém], em 1616 - sob o comando de Francisco Caldeira Castelo-Branco, trataram de sua defesa, fundando o Forte do Presépio ou do Castelo, e partindo dele, deram início a abertura dos primeiros caminhos, no bairro então chamado da Cidade, depois Cidade Velha.

 

Muias vêzes imagino-me no Largo da Sé.

Ao fundo, o pórtico do Forte do Castelo - baluarte célebre, que Francisco Caldeira Castelo Branco ergueu, em 1616, ao pisar o solo conquistado, e de onde o contingente colonizador conseguiu rechaçar o traçoeiro e feroz assalto dos tupinambás, vitória que possibilitou a sobrevivência da povoação nascente.

(Corrêa Pinto, Belém, 1968)

 

Entre as primeiras, a rua do Norte, aberta paralela à baia do Guajurá, nascendo da praça d'armas para findar no lugar onde está hoje a Igreja do Carmo, levantada pelos Carmelitas Calçados em terrenos que foram do quase lendário capitão-mor Bento Maciel Parente, que acompanhara Castelo Branco na fundação do Pará.

 

Paro, comovido, diante do notável monumento religioso que ao fundo se levanta: a igreja edificada pelos Carmelitas em honra de sua Protetora.

Com a frontaria enegrecida e carcomida pelo embate de muitos invernos e tempestades, o belo templo é uma autêntica e encantadora floração barroco-setecentista.

Raros exemplares da arquitetura colonial brasileira encerraram tantas características interessantes, como a igreja do Carmo em Belém do Pará.

Examine-se-lhe, pacientemente, detalhe por detalhe: demore-se o olhar na explêndida fachada revestida de pedra lioz e estilizada pela mão prodigiosa de Antonio José Landi; contemple-se o perfil ondulante do frontão; observe-se o magnífico desenho da janela das tôrres.

É com profunda emoção que transponho o limiar da veneranda igreja. E logo me enterneço com as belezas aí reunidas: o deslumbrante alta-mor de prata lavrada; os retábulos que palpitam no orientalismo de sua pomposa decoração; os púlpitos que flamejam nos seus relevos recamados de ouro; as imagens que nos arrebatam pelo realismo de suas feições

(Corrêa Pinto, Belém, 1968)

 

A Rua do Norte, denomina-se, hoje, rua Siqueira Mendes - uma homenagem ao ilustre sacerdote, Cônego Manuel José de Siqueira Mendes [1825-1892], chefe do Partido Conservador e presidente eventual da Província do Pará, em três períodos, entre 1868 e 1871.

Ainda em tempos do povoamento, foram abertas as ruas do Espírito Santo e dos Cavaleiros. A primeira, denomina-se, hoje, rua Dr. Assis - homenagem ao importante jornalista dr. Joaquim José de Assis, fundador, entre outros, do importante jornal "Província do Pará". A segunda, por deliberação da Câmara Municipal de Belém, de 04.09.1877, passou a denominar-se rua Dr. Malcher - homenagem ao dr. José da Gama Malcher, médico da Santa Casa de Misericórdia e Vacinador da Capital. Foi Presidente da Província do Pará e da Câmara Municipal de Belém.

Seguiu-se, ainda no século XVII, um estreito caminho, que na centúria seguinte ficou conhecida por rua de São João, por passar em frente à Capela dedicada ao mesmo Santo, erguida no século XVIII, segundo projeto do importante arquiteto italiano Antonio José Landi. A Rua de São João, denomina-se, hoje, rua João Diogo - uma homenagem ao político João Diogo Clemente Malcher, por várias vezes presidente da Câmara Municipal de Belém.

Ao mesmo tempo que as anteriores, acompanhando o crescimento urbano, ainda vagaroso, do novo núcle urbano nortista, surgiram os seguintes logradouros: Residência, Atalaia e Barrôca, hoje denominados, respectivamente, Vigia, Joaquim Távora e Gurupá.

Parece remontar, ainda, ao século XVII, a rua Calçada do Colégio, por ter sido alí edificado o Colégio dos Jesuítas, erguido naquele século. Foi, depois, denominada de Rua Pedro Raiol, e, atualmente, rua Padre Champagnat - homenagem ao Padre Marcelino José Bento Champagnat [1789-1840].

Já no século XVII, a cidade estava dividida em dois bairros: o da Cidade Velha e o da Campina.

 

CIDADE VELHA

Parte de Belém onde os portuguêses, sob o comando de Francisco Caldeira Castelo Branco, desembarcaram, construíndo um Forte de madeira e uma Capela.

A praça d'armas (pequeno e modesto) era defendida por uma Estacada de Madeira, dentro da qual ficaram os primeiros colonizadores civis e militares.

Saindo do Forte, os colonos abriram um caminho, que chamaram de rua do Norte, e foram se aventurando na construção de casas para moradia.

Daí surgiu a Cidade, chamada posteriormente de Velha, permanecendo esta denominação até os dias presentes.

É a parte colonial que resta da Belém dos séculos XVII e XVIII.

(Ernesto Cruz, Ruas de Belém, 1970)

 

Naqueles tempos, a linha divisória entre os dois bairros, era determinada pela rua de São Mateus, hoje denominada Travessa Padre Eutíquio - homenagem ao padre Eutíquio Pereira da Rocha, que exercera importantes funções políticas no Pará.

 

Uma das delícias da Capital paraense é, sem dúvida, o passeio pelas ruas evocativas da Cidade Velha.

Quem as percorre, sente-se apoderado da idéia de que recuou mais de cem anos, e acredita estar pisando o chão de um lugar esquecido no mundo.

Qual uma impetariz destronada, a Cidade Velha vive hoje das recordações, meditando sôbre os seus dias longínquos e gloriosos.

Afastada do tumulto que se espalha pela sua vizinhança, ela acolhe maternalmente quantos a visitam.

É sempre com emoção que penso nesse bairro povoado de legendas, contemporâneo da infância de Belém.

(Corrêa Pinto, Belém, 1968)

 

Passados sessenta anos da fundação da Cidade de Belém, com a chegada de um novo contigente colonizador - famílias açorianas - escolheu-se o novo bairro da Campina, considerada a Cidade Nova, para acomodá-las. Para isso, foi aberta, em 1676, a rua de São Vicente. Denomina-se, hoje, rua Paes de Carvalho - homenagem ao ilustre político dr. José Paes de Carvalho [1850-1943], um dos fundadores do Clube Republicano do Pará. Médico humanitário e Governador do Estado do Pará.

Entre outras, dominavam nestes últimos anos do século XVII, as famílias Maciel Parente, Feliciano Corrêa, Pedro Teixeira, Lameira França, Oliveira Pantoja, Lobato e os Morais que, entrelaçados com os Bittencourt, um dos grupos pertencentes à leva de açorianos, geraram a importante família Morais Bittencourt.

 

ORIGENS DAS DENOMINAÇÕES

 

Sobre a origem dos nomes dêsses «estreitos e mal alinhavados» caminhos, esclarece Ernesto Cruz, recaíam, geralmente: ou sobre o nome de moradores de maior destaque à rua em que residiam; ou sobre o nome de alguma importante edificação local; ou outra particularidade ocasional ou local.

As denominações desses logradouros, geralmente, ficavam assinalados nas esquinas, «com uma inscrição alva em campo negro, datando êsse uso do ano de 1804», informa, ainda, Ernesto Cruz, citando Monteiro Baena [Ensaio Corográfico Sôbre o Pará].

 

«Tivemos, assim, no bairro inicial da cidade, a rua dos Cavaleiros, nome de uma família alí residente; na Campina, a travessa dos Mirandas recordava o de antigos moradores daquela área de Belém; a rua Nova de Santana tirava a sua denominação da Igreja, que ficava adjacente; a rua do Paixão era homenagem ao português dêsse apelido, Antonio Rodriges Martins; o largo da Pólvora fôra assim chamado, por causa da casa onde se guardavam a pólvora e os armamentos das tropas coloniais; o largo do Palácio, por ali estar edificada a residência dos governadores; a rua da Cruz das Almas, por ser o caminho onde ficava erguida a Cruz e colocada ao lado a caixa das esmolas para a missa das Almas do purgatório. Era êsse o costume da época, que se tornou tradição em todo o Brasil.»

(Ernesto Cruz, Ruas de Belém, 1970)

 

A rua dos Cavaleiros - já citada acima, tem hoje a denominação de rua Dr. Malcher.

A Travessa dos Mirandas, por deliberação da Câmara Municipal de Belém, de 04.09.1877, passou a denominar-se Travessa 15 de Agosto.

A Rua Nova de Santana, deve o seu nome a Igreja de Nossa Senhora de Santa Ana, onde tinha comêço. Esta igreja estava formada pelo quadrilátero formado pelas ruas dos Mártires (hoje 28 de Setembro), de São Vicente (hoje Paes de Carvalho), do Landi (hoje Trav. Padre Prudêncio) e das Gaivotas (hoje Trav. 1.º de Março).

Igreja de Santana. Ilustração de Rudolf Riehl , para o Livro Ruas de Belém [Ernesto Cruz], pág. 71

 

«Igreja de Santana. Uma parte lateral dá para a Rua Manuel Barata, e a fachada para uma pequena praça conhecida popularmente por Largo de Santana. A construção data do século XVIII; planta do notável arquiteto Antonio José Landi, que também dirigiu a edificação. O local assinala a criação, em 1719 da paróquia de Santana, no bairro então denominado da Campina - o segundo núcleo de povoamento (após a Cidade Velha) surgido em Santa Maria de Belém»

(Ernesto Cruz, Ruas de Belém, 1970)

 

A Rua Nova de Santana, mudou a sua denominação para Rua Senador Manuel Barata - homenagem ao dr. Manuel de Melo Cardoso Barata [1841-1916], um dos mais notáveis historiadores paraenses, de quem confesso ser sobrinho-bisneto.

A antiga rua do Paixão, denominou-se, depois, rua Formosa e, hoje, denomina-se Rua 13 de Maio, lembrando a data em que as "Tropas da Legalidade se apossaram da cidade", em poder dos cabanos, no ano de 1836.

Antonio Rodrigues Martins, o Paixão, chefe de importante e antiga família paraense, teve entre os seus descendentes, o valoroso constitucionalista Filipe Alberto Patroni Martins Maciel Parente (é nome de Praça) também descendente de antiga família povoadora do Pará - os Maciel Parente. Uma das descendentes do velho Paixão, foi casada com o destacado arquiteto Antonio José Landi, aqui citado diversas vezes.

Acrescenta-

Acrescenta-se, ainda, a Rua do Açougue, denominação tomada, como não poderia deixar de ser, da existência de um açougue, neste logradouro. Cabe ressaltar, no entanto, que trata-se do primeiro açóugue havido na Cidade de Belém. Devido ao crescimento industrial no mesmo logradouro, chamou-se, tempos depois, de rua da Indústria. Atualmente, tem o nome de Rua Gaspar Viana - homenagem ao paraense Gaspar Viana [1886-1914], importante bacteriologista.

Rua Gaspar Viana. Ilustração de Rudolf Riehl , para o Livro Ruas de Belém [Ernesto Cruz], pág. 53

 

Enfim, a Rua Cruz das Almas - « o caminho onde ficava erguida a Cruz, tendo ao lado a caixa das esmolas para a missa das Almas do purgatório» - que, dividida, recebeu duas denominações.

A primeira, por deliberação da Câmara Municipal de Belém, de 04.09.1877, parte desta rua recebeu nova denominação: rua Cesário Alvim - homenagem ao ilustre político mineiro, dr. José Cesário de Faria Alvim, Governador do Estado de Minas Gerais, Ministro e Secretário de Estado dos Negócios do Império e Prefeito do Distrito Federal [RJ]. Dr. Cesário Alvim, concidentemente, também vem citado no artigo dêste mês, na seção Curiosidades, do Roteiro Cultural da HCGallery, de autoria do dr. J.P. Tarakan.

A parte restante deste antigo logradouro Cruz das Almas, recebeu a denominação de rua Arcipreste Manuel Teodoro - homenagem ao deputado provincial Manuel Teodoro Teixeira [1790-1844], Vigário Capitular, Governador do Bispado e Presidente interino da Província do Pará.

Ainda do século XVIII, registram-se as Ruas dos 48, de Santo Antonio e São Boaventura.

A primeira, foi aberta na segunda metade do século, cuja denominação, na dúvida, homenageia «aos 48 cidadões que, em São Vicente, foram eleitos pelo povo, para defender a soberania popular quando contrariada pelos emissários do Rei» (Ernesto Cruz, citando o historiador M. Braga Ribeiro).

A segunda, antigo e tradicional caminho que dava acesso à igreja de Samto Antonio, erguida no século XVIII, pelos Capuchos da Ordem de Santo Antonio de Lisboa. Sua construção teve princípio em 1736, e foi inaugurada em 1743.

A terceira, também um caminho tradicional, parece ter o seu nome tirado do Convento de São Boaventura, construído em 1706, pelos religiosos da Conceição da Beira e Minho.

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Nota: Segue no próximo mês - Parte II.

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Minas, 05.01.1999 - Carlos Eduardo B

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