Carlos Eduardo de Almeida Barata
Curriculum
MESTRE DE OBRAS - VI
[Estes antigos
Arquitetos]
[As Corporações de
Ofícios]
CONSTRUTORES DA CIDADE
DO RIO DE JANEIRO
.
"Arquiteto
era também um título corrente entre os mestres de
ofício, que se destacavam na arte de
construir."
(Pedro Silva Telles - História
da Engenharia, I)
MESTRE DE OFÍCIOS
Mestre, do lat.
magistr; esp. maestre, it. amestro, fr. maître.
Arcaico maestre, meestre: Eu Pedro Aluitis pela
graça de deus, Maestre do templo ... (Leges, p.
586 - Séc. XIV). Meestre meendo físico dElRei test.
(Leges, pg. 485 - Séc. XIV). Homem que ensina;
aquele que é versado em uma arte ou ciência. Ofício,
do lat. officium, de ob, e facere. Qualquer
profissão manual ou mecânica.
Abordarei, em seguida, sobre os diversos
ofícios mecânicos e seus Mestres, a saber: Canteiros,
Carpinteiros, Ferreiros, Marceneiros, Oleiros, Pedreiros e
Taipeiros.
Os artesãos que interessavam à
arquitetura eram os pedreiros, os canteiros (entalhadores de
pedra) e os rebocadores (em pedra ou gesso); os que
trabalhavam com madeira eram os carpinteiros, os carapinas
(faziam carpintaria fina e marcenaria) e os marceneiros ou
ebanistas. O ofício de entalhador (ou escultor na madeira)
não era um ofício mecânico propriamente dito. Ouve-se, às
vezes, falar dos imaginários ou estatuários, que criavam as
imagens religiosas, mas este termo "imaginário",
da mesma forma que o "estatuário", designa mais
uma qualidade, do que um ofício. O escultor trabalha apedra;
os que lidam com o ferro são os ferreiros, serralheiros e
latoeiros; há ainda os oleiros, ladrilheiros, e telheiros.
(Bazin - A Arquitetura Religiosa Barroca,
I, 44)
Em vias de publicação, coletei em dois
volumes, um total de 412 Mestres de Ofícios (345 deles,
pertencentes ao séc. XIX), entre eles, 17 Contra-Mestres.
Daquele total, 275 são Mestres de Obras (245 deles pertencentes
ao século XIX), e o restante, Mestres Pedreiros, Mestres
Carpinteiros, Mestres Canteiros, Mestres Marceneiros, etc.,
conforme vai descriminado no final destes artigos.
I - CANTEIRO
1. (pedreiro): De canto
(pedra) e suf. eiro. 2. (alegrete): De canto
- Ângulo, pedra grande para esquadria; e sufixo eiro.
Canteiro - o operário que trabalha em cantaria, de canto,
pedra. Sua bandeira tinha por patronado a Irmandade
do Patriarca de São José.
"Prende-se à raiz * qanth,
alargamento da raiz *qamb, esquina, dobra (...). De canto,
pedra, procedem cantaria, pedra esquadriada; canteira,
pedreira; canteiro, homem que trabalha em cantaria (...),
cantroço, grande pedaço de alguma cousa; cantoeira, peça
de ferro com que se firmam as pedras de cantaria nos
edifícios;"
(Magne, Dicionário Etimológico, III,
54-56)
Em 1880, em Lisboa, um "jornal"
(salário diário) de Canteiro custava $900. Para se ter uma
noção do "tempo necessário para elevar por meio
dum guincho um metro cúbico de cantaria a differentes
alturas, em 1880, segue, por curiosidade, a tabela seguinte:
| ALTURAS HORAS |
| 2 m 10 h. 20' |
| 4 m 10 h. 20' |
| 6 m 10 h. 20' |
| 8 m 10 h. 20' |
| 10 m 10 h. 20' |
| 12 m 10 h. 20' |
| 16 m 10 h. 20' |
| 20 m 10 h. 20' |
| 24 m 10 h. 20' |
| 30 m 10 h. 20' |
(Cohen - Bases para Orçamentos,
36-7)
Sobre as condições da pedra de cantaria, para
a Construção Civil, em 1880, segue as especificações
deixadas, em Lisboa, por Cohen, também válidas para o Brasil:
"A pedra de cantaria
deve ser dura, não sujeita a estalar pelas geades, de grão
homogeneo e perfeitamente sã e isenta de cavidades, fendas e
lezins ou pellos.
Deve tambem ser
perfeitamente limpa da crusta branda, que muitas vezes
reveste os leitos de pedreira.
O comprimento das
cantarias, tanto em paramento como na face posterior, não
excederá tres vezes a altura da fiada. A espessura media do
revestimento deve ser determinada, tendo em vista a natureza
da obra, em que é empregado.
A cantaria deve ser
apparelhada de modo a assentar sobre o leito de pedreira ou a
ser comprimida, como por exemplo nas abobadas,
perpendicularmente a esse leito.
Os leitos, sobreleitos e
juntas devem ser bem desempenados, apparelhados com esmero e
dispostos parallelamente, na extensão de uma vez a altura
das fiadas para os leitos e sobreleitos e de 0m,3 para as
juntas.
As faces dos paramentos
devem ser apparelhadas a picão ou a pico miudo ou escodadas,
conforme a natureza da obra.
(Cohen - Bases para
Orçamentos, 185)
Não se encontrou nenhum registro, no Rio de
Janeiro quinhentista e seiscentista, de Mestres Canteiros e
Canteiros, atuando na construção civil e militar da Cidade.
Evidente, que os mesmos existiram, mas, a escassez de registros,
não permitiu detectá-los ou, até mesmos, identificá-los com
essa especificação entre os que exerceram o Ofício de
Pedreiros. Houve, também, entre estes artífices, aqueles que
exerceram as funções de "aparelhadores de pedras" -
ver adiante.
No Rio de Janeiro setecentista,
registram-se 13 canteiros, dos quais:
- 8 (61,5 %) são oficiais
canteiros, e
- 1 (7,6 %), Mestre do Ofício de
Canteiro.
Finalmente, no Rio de Janeiro
oitocentista, registram-se 19 canteiros, sendo 9 (47 %) Mestres
Canteiros. Cabe registrar, dentre estes Mestres, que dois (22 %)
deles, exerceram autos cargos em seus ofícios:
- 1 Mestre Canteiro das Obras Reais;
e
- 1 Mestre Canteiro das Obras
Públicas.
II - CARPINTEIRO
Do lat. carpentariu, segeiro; esp.
carpintero, it. carpentiere, fr. charpentier. O
carpentarius fazia o carpentium, carruagem aberta de
duas rodas, de luxo das damas romanas; carro de
transporte ou de guerra. Palavra de origem céltica.
É uma das numerosas designações de veículos
tomadas aos Gauleses.
"Carpentárius na
origem é só adj., v. gr. em Plínio: vem substantivado,
subentendo-se faber, pela primeira vez em
Tarrunteno Paterno, por volta de 180 d.C. (...) Como
substantivo, desígna, a princípio, o carreiro ou fabricante
de carros; a acepção de «carpinteiro» encontra-se desde o
séc. VIII e é frequente em documentos galo-românicos a
partir do século X.
(Magne, Dicionário
Etimológico, III, 159)
Houve generalização de sentido, pois passou a
designar operário que trabalha em madeira; operário que
trabalha a madeira servindo-se de ferramenta manual e mecânica
no seu aparelho e acabamento. A bandeira dos Carpinteiros de
Casas, tinha por patronado pela Irmandade do Patriarca de São
José. Os Carpinteiros de móveis e semblage, tinham por
patronato a Irmandade da Senhora da Encarnação.
É na Grécia que começa o processo histórico
da carpintaria e o que caracteriza a sua arquitetura é a
cobertura de madeira. As múltiplas construções romanas de
arcos e abóbadas acusam a presença de exímios carpinteiros na
construção de suas formas e armações. Entre os portugueses
foram as Corporações dos Carpinteiros entre as mais numerosas
já no século XIV.
Segundo a especialidade, podem-se classificar
diversos tipos de carpinteiros:
- Mestre-Carpinteiro - oficial,
artífice que se encarrega das construções de
carpintaria, tendo sob as suas ordens operários do seu
ofício;
- Carpinteiro da Construção Civil -
aquele que constrói a armação dos edifícios ou as
peças, relativamente grandes, dos mesmos (andaimes,
escadas, tetos, etc.);
- Carpinteiro de Armar - o mesmo que
o da construção civil;
- Carpinteiro de machado - aquele que
emprega no seu trabalho, entre outras ferramentas, o
machado apropriado ao aparelho dos mastros;
- Carpinteiro da construção naval -
o mesmo que carpinteiro de machado;
- Carpinteiro de moldes - aquele que
executa os moldes das peças a reproduzir em metal pela
fundição;
- Carpinteiro de oficina - aquele que
faz todas as peças de madeira necessárias ao edifício
(revestimentos, portas, janelas, etc.);
- Carpinteiro artista - aquele que
faz móveis de casa usando madeira vulgar; e
- Carpinteiro da Ribeira - destinado
a construção ou reparos de embarcações, e
construção ou reparos do cais da ribeira, ou seja,
estaleiro.
"Se a casa foi a primeira, nas
obras de construção, nela já se empregou madeira, os
próprios troncos de árvores, apenas desbastados, para
sustentar a terra amassada e um tecto frágil. Mas logo
também surgiu a necessidade da madeira trabalhada e se
fizeram carpinteiros dois Padres [Jesuítas],
Antonio Pires e Afonso Brás; e aprendeu o Ir. (depois Padre)
Diogo Jácome a arte de torneiro, em que se tornou mestre.
Movimento espontâneo como tantos outros exigidos pelas
necessidades da terra, onde a civilização ocidental dava os
primeiros passos firmes; e que foi o humilde princípio das
oficinas de carpintaria, marcenaria e escultura, que
atingiram o apogeu na segunda metade do século XVII e
primeiro quartel do século XVIII, período principal das
grandes construções jesuíticas do Brasil."
(Serafim Leite, Artes e Ofícios, 44)
Na Bahia, em princípios do século XVIII
(1716), um carpinteiro que fosse Mestre, ganhava do seu
"jornal" (salário diário), $400 rs., e o obreiro
trabalhando de tudo $320 rs., além de receber a alimentação.
Se o obreiro de carpintaria somente souber cortar com o machado,
e taquear, vencerá por dia de seu "jornal" $320 rs. a
seco, ou seja, sem alimentação. Os Carpinteiros da Ribeira,
ou dos engenhos, sendo Mestres ganhavam por dia, a seco,
$640 rs., e sendo obreiro $400 rs. , a seco.
Em 1880, em Lisboa, um "jornal"
(salário diário) de Carpinteiro de machado, custava 1$000; e de
Carpinteiro, saía por $800. (Cohen - Bases para Orçamentos).
No Rio de Janeiro quinhentista,
registram-se 12 Carpinteiros, dos quais, nenhum chegou a
maestria. Estes artífices representam o dobro do número de
Arquitetos para o mesmo período - seis (6). Entre eles,
destacam-se 5 carpinteiros da ribeira (destes, dois trabalharam
em fortificações) e 1 carpinteiro do "tojuco".
| RIO DE JANEIRO -
SÉCULO XVI |
| CARPINTEIROS |
| NOME |
DATAS |
FUNÇÃO |
ORIGEM |
DOCUMENTADO |
| Domingos Braga |
|
Carp. da Ribeira |
Português |
1565 |
| Simão Fernandes |
|
Carp. da Ribeira |
Português |
1571 |
| Antonio de Frias |
|
Carp. da Ribeira |
Português |
1571 |
| João Gomes |
|
Carp. da Ribeira |
Português |
1571 |
| Afonso Brás |
(1524-1610) |
Religioso |
Português |
1573 |
| Diogo Álvares |
(1563-1617) |
Religioso |
Português |
1589 |
| Jorge Esteves |
(1549-1639) |
Religioso |
Português |
1574 |
| Francisco Ecalante |
(ca.1559-1631) |
Religioso |
Português |
1582 |
| Pedro Álvares |
(1557-1636) |
Religioso |
Português |
1589 |
| João Brás |
(1557-16??) |
Carp. da Ribeira |
Português |
a.1591 |
| João Dias |
|
|
Português |
1598 |
| Luiz Fernandes |
(1563-1626) |
Religioso |
Português |
1598 |
No Rio de Janeiro seiscentista,
registram-se 43 Carpinteiros, dos quais 6 (14 %), chegaram a
Mestres Carpinteiros. Entre as diversos cargos exercidos por
estes artífices, registram-se:
- 4 (9,3 %) Carpinteiros da Ribeira -
destinados a construção e reparos de embarcações
e de estaleiros;
- 6 (14 %) Oficiais Carpinteiros;
- 1 (2,3 %) Juiz do Ofício de
Carpinteiro; e
- 2 (4,6 %) Escrivões do Ofício de
Carpinteiro.
Com relação aos registros obtidos
para a centúria anterior (12), houve um acréscimo de 31
(258 %) carpinteiros.
No Rio de Janeiro setecentista,
registram-se 44 Carpinteiros, dos quais 5 (11,6 %), chegaram a
Mestres Carpinteiros. Entre estes artífices, registram-se:
- 3 (6,8 %) Carpinteiros da Ribeira;
- 1 (2,2 %) Carpinteiro de carros;
- 2 (4,4 %) Oficiais Carpinteiros;
- 1 (2,4 %) Juiz do Ofício de
Carpinteiro;
- 2 (4,4 %) Escrivões do Ofício de
Carpinteiro, 1 (2,2 %), com o pomposo título de
Carpinteiro-Mor; e
- 1 (2,2 %) Principiante de
Carpintaria..
Finalmente, no Rio de Janeiro
oitocentista, registra-se um expressivo número destes artífices
atuantes nas construções civis: 274 carpinteiros. Destes, foram
documentados 21 (7,6 %) Mestres Carpinteiros. Entre as diversas
funções destes artífices, registram-se:
- 1 (0,36 %) Mestre Carpinteiro das
Obras Reais;
- 2 (0,72 %) Mestre Carpinteiro da
Ribeira (construção naval);
- 3 (1,1 %) Mestre Carpinteiro da Casa
Real;
- 3 (1,1 %) Oficiais Carpinteiros;
- 3 (1,1 %) Contra-Mestres Carpinteiros
Navais;
- 2 (0,72 %) Juizes do Oficio de
Carpinteiro;
- 2 (0,72 %) Mestre Geral de Carpintaria
da Diretoria das Obras Públicas;
- 6 (2,2 %).Contra-Mestres Carpinteiro;
- 2 Avaliadores dae Obras de
Carpintaria;
- 1 Escrivão Geral do Ofício de
Carpintaria; e
- 1 Aprendiz de Carpinteiro.
| RESUMO COMPARATIVO |
| CONSTRUTORES DA
CIDADE |
| SÉCULO |
MESTRES DE OBRAS |
ARQUITETOS |
CARPINTEIROS |
TOTAL |
| XVI |
6 |
6 |
12 |
24 |
| XVII |
3 |
5 |
43 |
51 |
| XVIII |
21 |
13 |
44 |
78 |
| XIX |
245 |
120 |
274 |
639 |
Nota: Continua: Os
Mestres de Obras - VII [Os Mestres de Ofícios no Rio de
Janeiro]
Fonte: Construtores da Cidade do Rio
de Janeiro. 2 vols., 1000 págs. do mesmo autor: Carlos
Eduardo Barata.
Minas, 28.04.1999 - Carlos de Almeida Barata
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