Carlos Eduardo de Almeida Barata
Curriculum
MESTRE DE OBRAS - VII
[Estes antigos
Arquitetos]
[Os Mestres de Ofícios]
CONSTRUTORES DA CIDADE
DO RIO DE JANEIRO
FERREIRO
Aquele que trabalha com ferro., do
lat. ferru; esp. hierro, it. ferro, fr. fer. (Antenor
Nascentes, Dic. Etimológico, I).
Este ofício tinha regimento passado pelo
Senado de Lisboa, em 1572. Em Leiria existiu um Hospital de
Ferreiros, estabelecido muito antes de 1544, englobando nesta
designação os ferreiros, caldereiros, picheleiros,
serralheiros, ferradores, cutileiros, carvoeiros e ourives.
Destes, somente relacionei nos dois volumes - Construtores da
Cidade do Rio de Janeiro - os Ferreiros e alguns Serralheiros,
por suas participações na construção civil: grampos,
balcões, alpendres, ligas entre pedras, etc. - sobretudo em fins
do século XIX.
Os ferreiros e serralheiros estavam
embandeirados, sob a proteção da Irmandade de S. Jorge. Os
torneiros, estavam patronados pela Irmandade de N. Senhora das
Mercês.
"Eram obrigados a ser membros da
Irmandade, a cujo cargo estava apresentar a imagem de S.
Jorge na procissão de Corpo de Deus, devendo todos os
mestres que tivessem loja aberta pagar de joia 1$920 e
annualmente 640 réis. Os desobedientes seriam obrigados a «fechar
suas lojas», requerimento isso a irmandade a juiz
Competente. Além da administração da Confraria, cada
officio tinha o direito de eleger o seu juiz e escrivão. Os
ermãos nomeados para accompanharem a imagem de S. Jorge «eram
propostos ao Senado da Camara para os obrigar a ir, e em caso
de faltarem serem condemnados na quantia de seis mil réis,
paga executivamente da cadeia !» Os juizes e
escrivães dos officios accompanhavam o prestilo vestindo capa
e volta, e podiam, accrescentamos, usar espadim,
privilegio concedido pela pragmatica de 1751.
Na Bahia, em princípios do século XVIII
(1716), um ferreiro utilizava-se do seguinte material:
- pregos de sumaca, ao preço de 10 réis
cada um;
- pregos de barco pequeno, a 10 réis cada
um;
- pregos de palmares, a 2 vintens cada um;
- pregos de encaixar, a 4 reis cada um;
- pregos, em geral, a $120 rs., a centena;
- machados de olho redindo a $400 rs. cada
um;
- acha de carapina a $600 rs. cada;
- foice de rouçar, a $400 rs.;
- cavador grande, a $200 rs.;
- cavador pequeno, a $160 rs.; e
- enxada a $480 rs. (Smith, Documentos
Baianos, 115).
Uma dobradiça para janelas, no Recife, entre
1721 e 1725, custava $160 rs; uma fechadura e aldraba para porta
1$440 rs. (Smith, Documentos Baianos, 115).
Em 1880, em Lisboa, um "jornal"
(salário diário) de Ferreiro custava 1$000; de funileiro,
1$000, de Torneiro, 1$200, e de Serralheiro, saía por 1$000.
(Cohen - Bases para Orçamentos).
No Rio de Janeiro quinhentista,
registram-se somente 3 Ferreiros. Acrescenta-se a eles, outro
artífice do metal, um Torneiro - aquele que faz trabalhos
ao torno.
| RIO DE JANEIRO -
SÉCULO XVI |
| FERREIROS |
| NOME |
FUNÇÃO |
DOCUMENTADO |
| Antonio Esteves |
Ferreiro |
1565 |
| Amador Pires |
Ferreiro |
1569 |
| João Fernandes |
Ferreiro |
1592 |
| Sebastião Dias |
Torneiro |
1594 |
No Rio de Janeiro seiscentista,
registram-se somente 4 Ferreiros, entre eles, 1 (25 %) Oficial
Ferreiro.
No Rio de Janeiro setecentista, ainda
registram-se somente 4 Ferreiros, entre estes:
- um (25 %) Mestre Ferreiro; e
- um (25 %) Oficial Ferreiro.
Segundo o Almanaque Histórico da Cidade do
Rio de Janeiro, para o ano de 1792, funcionavam na cidade:
- 23 lojas de ferreiros;
- 7 lojas de torneiros; e
- 7 lojas de serralheiros.
Segundo o Almanaque Histórico da Cidade do
Rio de Janeiro, para o ano de 1793, funcionavam:
- 24 lojas de ferreiros;
- 10 lojas de serralheiros;
Segundo o Almanaque Histórico da Cidade do
Rio de Janeiro, para o ano de 1799, funcionavam na Cidade:
- 11 lojas de ferreiros;
- 04 lojas de torneiros;
- 25 lojas de serralheiros.
Finalmente, no Rio de Janeiro
oitocentista, registram-se 130 Ferreiros, entre eles:
- 7 (5,4 %), Mestres do Ofício de
Ferreiro,
- 1 Mestre Ferreiro da Casa Imperial;
- 1 Mestre Ferreira Naval;
- 1 Contramestre Ferreiro Naval;
- 1 Oficial Ferreiro; e
Cerca de 92 (65,2 %) Oficinas de
Ferreiros e Serralheiros. Entre estas últimas, hão 1
Mestre Serralheiro e 1 Contra Mestre Serralheiro.
MARCENEIRO
Do lat. mercenariu,
assalariado. Cortesão entende que a significação
se pode referir não só ao que compra e vende, mas
também ao jornaleiro e daí, em sentido restrito, ao
jornaleiro que trabalha em móveis de madeira.
Ofício patronado pela Irmandade do Patriarca
de São José. Distinguem-se do carpinteiro, pela delicadeza de
sua obra, executando móveis de luxo geralmente polidos ou
envernizados. Representa o continuador dos antigos trabalhos de
ébano, que tanta fama alcançaram em toda a Europa, mas
sobretudo na Península, nos séculos XVII e XVIII.
"Além dos grandes madeiramentos
das Igrejas e Colégios, e cavername e aparelhagens da
indústria naval, e da obra de talha dos altares e dos
artefactos comuns de utilidade imediata ou até industrial
(aparece algum Irmão tanoeiro), havia os Irmãos que
lavravam mobiliário artístico e marcenaria fina;
lavravam-se credências, consolas (de igreja e de salão),
retábulos, tocheiros, sacras; bufetes, aparadores,
contadores, cadeiras de sola lavrada, arcas e arcazes com
bronzes e embutidos de madeiras coloridas, casco de tartaruga
e marfim, mesas com gavetas tauxiadas e secretárias,
papeleiras ou "escritórios" ... "
Os Catálogos [da Companhia]
deste tempo, 1589, não tem palavra especial para designar a
arte de marceneiro e entalhador: tudo é carpinteiro («faber
lignarius»). Um século depois distinguem-se duas
tendências: «faber lignarius et scriniarius»; «faber
lignarius et sculptor», contemporâneos das grandes obras da
Baía e do Recife. A primeira fórmula acentuaria mais a arte
de mobiliário e marcenaria; a segunda mais a de escultura e
estatuária.
Para se ter uma noção dos tipos de madeiras
utilizadas na Construção Civil, em 1880, segue uma relação
publicada por Cohen (Bases para Orçamentos, 158), em Lisboa:
- Acacia, Acajú, Alamo branco, Alamo preto,
Amieira, Amoreira preta, Amoreira branca, Bordo, Buxo,
Carvalho, Carvalho dAfrica, Carvalho dAmerica
vermelho, Carvalho dAmérica branco, Carvalho
inglês, Castanheiro, Cedro da Índia, Cedro da América,
Cedro do Líbano, Choupo, Coqueiro, , Cortiça, Ebano,
Eucaliptus globulus, Faia, Freixo, Larangeira, Loureiro,
Maceira, Mogono de Honduras, Mogono espanhol, Marmeleiro,
Murta, Nogueira, Oliveira, Pau-Brasil, Pau-campeche,
Pau-ferro, Pau-santo, Pinho amarelo, Pinho branco, Pinho
do Canadá spruce, Pinho de Cristiama, Pinho de Dantzic,
Pinho de Memel, Pinho de Riga, Pinho Vermelho, Platano,
Romeira, Sandalo amarelo, Sandalo branco, Sandalo escuro,
Sicomoro, Tecka da Índia, Tecka da Africa, Teixo, Tilia,
Ulmeiro, Ulmeiro do Canadá e Vidoeiro.
Em 1880, ainda em Lisboa, um
"jornal" (salário diário) de Serrador custava
1$200.
Não encontrou-se, por ora, registro de
marceneiros atuantes no Rio de Janeiro quinhentista,
embora, com toda certeza existissem. Há notícias de Mestres de
Obras sem, no entanto, haver qualquer indicação de seus
ofícios de origem. Também há registros de carpinteiros e
entalhadores com especialidade em marcenaria. Registra-se,
também, um "Serrador", atuando neste século
XVI:
| RIO DE JANEIRO -
SÉCULO XVI |
| MARCENEIROS |
| NOME |
FUNÇÃO |
DOCUMENTADO |
| André Fernandes |
Serrador |
1567 |
Provavelmente, o ofício de marceneiro ficou
embutido naqueles outros, ou, até mesmo, confundido com o oficio
dos carpinteiros. Noronha Santos, por exemplo, escreveu
interessante artigo sobre um litígio entre os Marceneiros e os
Entalhadores, no século XVIII, sob a acusação de haver um
entalhador com loja e aprendizes em sua oficina, executando obras
de marcenarias.
No Rio de Janeiro seiscentista,
registram-se 5 Marceneiros, entre eles, 1 (20 %) Oficial de
Marcenaria.
| RIO DE JANEIRO -
SÉCULO XVII |
| MARCENEIROS |
| NOME |
DATAS |
FUNÇÃO |
DOCUMENTADO |
| João Lopes Garcia |
(ca.1653-?) |
Oficial de Carp.a |
1678 |
| Cristóvão Aguiar |
(ca.1661-?) |
Marceneiro |
1682 |
| João Lopes |
(ca.1652-) |
Marceneiro |
1684 |
| Antonio Nunes |
(ca.1658-) |
Marceneiro |
1688 |
| Aleixo Rodrigues |
|
Marceneiro |
1692 |
No Rio de Janeiro setecentista,
registram-se 16 Marceneiros, dos quais 2 (12,5 %), chegaram a
Mestres Marceneiros. Entre as diversas funções deste ofício,
registram-se, entre aqueles dezesseis artífices, as seguintes:
- 3 (18 %) Oficiais Marceneiros;
- 2 (12,5 %) Juizes do Ofício de
Marceneiro; e
- 1 (6 %) Avaliador das Obras de Marcenaria.
Com relação aos registros do séc. XVII,
(5), houve um acréscimo de 11 (220 %) marceneiros.
Segundo o Almanaque Histórico da Cidade do
Rio de Janeiro, para o ano de 1792, funcionavam na Cidade:
Segundo o Almanaque Histórico da Cidade do
Rio de Janeiro, para o ano de 1793, funcionavam na Cidade:
Segundo o Almanaque Histórico da Cidade do
Rio de Janeiro, para o ano de 1799, funcionavam na Cidade:
Estes Almanaques, no entanto, não
especificavam os proprietários, como vinhão fazendo os
Almanaques "Laemmert", publicados a partir de
1843/44.
Finalmente, no Rio de Janeiro
oitocentista, registram-se 384 Marceneiros, dos quais, somente 4
(1 %), foram registrados como Mestre Marceneiro. Entre as
diversas funções deste ofício, registram-se:
- 3 Juizes Marceneiros;
- 2 Escrivãos do Ofício de Marceneiro,
- 1 Avaliador do Ofício de Marcenaria;
- 1 Contra Mestre Marceneiro,
- 2 Oficial de Marcenaria,
- 1 Marceneiro da Casa Real,
- 1 vendedor de obras de marcenaria; e
- cerca de 161 (37 %) Oficinas de
Marcenaria.
Com relação aos registros do séc. XVIII,
(16), houve um substancial acréscimo de 368 (2300 %)
marceneiros. Registram-se, ainda, no século XIX: 13
fabricantes de móveis e 30 Proprietários de Serrarias.
| RESUMO COMPARATIVO |
| CONSTRUTORES DA
CIDADE |
| SÉCULO |
MESTRES DE OBRAS |
ARQUITETOS |
CARPINTEIROS |
MARCENEIROS |
TOTAL |
| XVI |
6 |
6 |
12 |
0 |
24 |
| XVII |
3 |
5 |
43 |
5 |
56 |
| XVIII |
21 |
13 |
44 |
16 |
94 |
| XIX |
245 |
120 |
274 |
384 |
1023 |
Nota: Continua: Os
Mestres de Obras - VIII [Os Mestres de Ofícios no Rio de
Janeiro]
Fonte: Construtores da Cidade do Rio
de Janeiro. 2 vols., 1000 págs. do mesmo autor: Carlos
Eduardo Barata.
Minas, 28.05.1999 - Carlos de Almeida Barata
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