Carlos Eduardo de Almeida Barata
Curriculum


MESTRE DE OBRAS - VIII

[Estes antigos Arquitetos]

[Os Mestres de Ofícios]

CONSTRUTORES DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO

MESTRE DE OBRAS -

MESTRE DE OBRAS - VIII

[Os Mestres de Ofícios]

CONSTRUTORES DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO

 

 

OLEIRO, FABRICANTE DE TIJOLOS E TELHAS

Oleiro, do lat. ollariu (Antenor Nascentes, Dic. Etimológico, I). Aquele que trabalha em louças de barros, cuja oficina se chama Olaria (do lat. olla) - casa onde se fabricam vasos e quaisquer louças de barro. Local onde se fabricam objetos com barro cozido. Sua bandeira tinha por patronato a Irmandade de Santa Justa e Santa Rufina.

 

"Designam-se sob o nome de olaria os productos cerâmicos fabricados com argila cozida; classificam-se em olarias de pasta permeável á água (terra-cota, faiança) e olarias de pasta impermeável à água (grés, porcellana). As terra-cotas são pastas argilo-arenosas, que soffreram uma cocção a baixa temperatura: constituem os tijolos, as telhas, os tubos de drenagem, os vasos para flôres, etc. Algumas qualidades muito resistentes ao fogo, servem de productos refractários para os fornos." (...)

"A olaria era já conhecida na antiguidade; as escavações fizeram apparecer numerosos exemplares da arte dos oleiros etruscos, gregos, persas, etc.

(Lello Universal, II, 465)

 

Tijolo, do lat. tegula, argila ou barro amassado e moldado, em seguida sêco quer ao sol (tijolo cru), quer ao fogo (tijolo cozido). São conhecidos desde a mais alta antiguidade. Tem, geralmente, a forma de um paralelepípedo de espessura uniforme e de arestas vivas. O fabrico do material, em Olarias, compreende várias operações.

Há diferentes variedades de tijolos: escuros, cinzentos e vermelhos; tijolos ingleses; tijolos circulares (para a construção de chaminés); tijolos furados (para paredes de interiores); tijolos refratários para paredes de fornos); etc.

O tipo "adobe", foi um dos mais utilizados em residências e igrejas brasileiras dos séculos XVIII e XIX: Fazenda Columbandé - século XVIII / adobe, estrutura de madeira (São Gonçalo, RJ); e Fazenda da Baronesa - século XIX / adobe (Campos, RJ).

 

ADOBE - Os adôbos são paralepedos de barro com dimensões em torno de 0,20 x 0,20 x 0,40 m. diferindo dos tijolos apenas por não ssrem cozidos no forno. São compactados manualmente em formas de madeira e postos a secar na sombra durante certo número de dias e depois ao sol. Deve o barro conter certa percentagem de argila e areia a que se juntam, por vezes, fibras vegetais ou estrume de boi para melhor consistência dos blocos. São os adôbos assentados e emaçados com barro, podendo receber reboço de cal e areia.

(Del Breno - Arqitetura de Terra, 14)

 

Telha, do lat. tegula, de tegere - termo genérico para designar uma peça de barro cozido, de pequenas dimensões e sobretudo de pequena espessura, de matéria, forma e cores variadas e empregada desde a mais alta antiguidade para cobrir as construções; para fazer telhados. São formadas por uma mistura de terra argilosa e areia, fabricadas nas olarias.

Quanto à forma, distinguem-se, as telhas côncavas, as chatas ou de Marselha (ou telha francesa), as chatas com rebordos, as flamengas, as romanas ou de canudo, de meia cana (telha canal, ou portuguesa, ou de Alhandra), de escama (que se assentam como as ardósias), de concha, de lança, etc.

Vivaldo Coaracy, apresenta as olarias entre as primeiras indústrias estabelecidas no Rio de Janeiro do século XVII:

 

1634 - Localizadas ao longo do caminho do Catete e junto aos barreiros existentes no Campo da Cidade, eram fatôres necessários do desenvolvimento da construção urbano. Mas as ruas ainda apresentavam numerosos casebres de pau-a-pique, verdadeiras choupanas edificadas com a madeira que os elementos pobres da polulação im cortar nos mangues de São Diogo. Com o intuito de facilitar as edificações de tijolo, as construções de alvenaria, a Câmara fixou em 3$000 o preço do milheiro de tijolos e em 20$000 o do milheiro de telhas.

(Coaracy - O Rio de Janeiro do Século XVII, 83-4)

 

Sobre a atuação dos Oleiros, nos subúrbios cariocas, o processo de extração da argila, preparação das pastas, moldagem ou cortagem e queima ou cozedura para o fabrico do tijolo, leia-se:

  1. Magalhães Corrêa - OS OLEIROS - Capítulo X, da grande obra "O Sertão Carioca", publicada na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Volume 167, Rio de Janeiro, Imprensa nacional, 1933, págs. 127-135.

 

"A construção, na vasta zona do sertão carioca, é caracterizada pelo que ha de mais primitivo em habitação: rancho, casa de sapê, de sopapo, pau a pique e frontal, o que vem reflectir na montagem da olaria, que produz a verdadeira cerâmica da construcção e tornou-se uma industria a mais rudimentar que se pode imaginar, apesar do resultado ser o mesmo quanto ao fabrico de tijolo, naturalmente menos lucrativo, em relação ás de montagem moderna."

(Magalhães Corrêa, Os Oleiros, 129)

 

"Pelas posturas municipais da Câmara [do Rio de Janeiro], em 1634, fica determinado o limite de preços pelos quais era permetido aos oleiros vender, telhas e tijolos de sua fabricação. Figuram as olarias entre as primeiras indústrias estabelecidas no Rio de Janeiro. Localizadas ao longo do Caminho do catete e junto aos barreiros existentes no Campo da Cidade, eram fatôres necessários do desenvolvimento da construção urbana. Mas as ruas ainda apresentavam numerosos casebres de pau-a-pique, verdadeiras choupanas edificadas com a madeira que os elementos pobres da população iam cortar nos mangues de São Diogo. Com o intuito de facilitar as edificações de tijolo, as construções de alvenaria, a Câmara fixou em 3$000 o preço do milheiro de tijolos e em 20$000 o do milheiro de telhas.

(Vivaldo Coaracy, Rio de Janeiro no Século XVII).

 

Na Bahia, em princípios do século XVIII (1716), um tijolo de alvenaria não se vendia por mais de "2 mil 4 centos e terá de grosso dous dedos e mais, de comprido palmo e meio, digo a quatro mil e quinhentos reis posto no porto desta cidade com o frete". O Tijolo de ladrilho, não se vendia por mais de "dous mil e quinhentos o milheiro de forma a qual de grossura de polegada, e meio digo a quatro mil quinhentos com o frete". A telha se vendia a 3$300 rs., o milheiro de "três palmos de comprido, e hum de largura". No Recife, entre 1721 e 1725, o tijolo de ladrilho custava 1$000 rs. o milheiro. (Smith, Documentos Baianos, 114-15).

Em 1880, em Lisboa, um milheiro de telhas portuguesas, custava 10$000; a mesma quantidade de Telha de Marselha, saía por 40$000. Na mesma ocasião, 1 milheiro

 

Sobre as condições das telhas, tijolos e ladrilhos, usados na Construção Civil, segue as especificações deixadas, em 1880, em Lisboa, por Cohen, também válidas para o Brasil:

 

"Os tijolos e ladrilhos deverão ser bem cosidos, leves, duros, sonoros, consistentes e não vetrificados; terão as faces bem planas, as arestas vivas e a pasta será bem comprimida e homogenea e isenta de fragmentos calcareos."

"As telhas serão de boa qualidade, bem cosidas, vetrificadas ao fogo e perfeitamente moldadas."

(Cohen - Bases para Orçamentos, 187)

 

J. Wasth Rodrigues, em seu trabalho sobre "A casa de moradia no Brasil antigo", ao falar sobre tipos e processos de construção, informa:

 

"Outro tipo de construção muito disseminado é o de adobe: tijolos de barro crú misturado com capim, e secados ao sol, com 0,30 de comrpimento por 0,15 de altura e de largura, aproximadamente - como ainda os fazem no sul de Minas. São ligados e rebocados também com barro.

Em algumas casas antigas, a parede era constituída com duas ordens de esteios verticais, paralelos e travados, sendo o vão cheio com adobe ou pedaços de pedra e barro. Tinha assim meio metro ou mais de espessura. Este processo foi muito usado em S. Paulo.

Alusões ao uso do tijolo e da telha no Brasil já se encontram em cartas e documentos a partir da segunda metade do século XVI.

(Wasth Rodrigues, A Casa de moradia, 167)

 

No Rio de Janeiro quinhentista, registram-se 8 Oleiros.

 

RIO DE JANEIRO - SÉCULO XVI
OLEIROS
NOME OBS.: FUNÇÃO DOCUMENTADO
Duarte Martins Mourão   Oleiro 1569
Sebastião Fernandes Leão   Oleiro 1578
João Guterres   Oleiro 1589
João Martins Castelhano   Oleiro 1589
Francisco da Fonseca Leão   Oleiro 1594
Sebastião Fernandes   Oleiro 1595
Antonio Jorge Religioso Oleiro 1598
Antonio Leão   Oleiro 15--

 

No Rio de Janeiro seiscentista, registra-se 2 Oleiros. Cabe registrar, que alguns dos oleiros do século anterior continuaram atuando neste, além da oficina de olaria, mantida pelos beneditinos.

 

RIO DE JANEIRO - SÉCULO XVII
OLEIROS
NOME OBS.: FUNÇÃO DOCUMENTADO
Tomé Antunes da Rocha   Oleiro 1626
Leandro do Rosário Religioso Oleiro 16--
João Guterres

 

No Rio de Janeiro setecentista, registram-se somente 3 Oleiro.

 

No Rio de Janeiro oitocentista, registram-se 38 Oleiros. Muitos deles, com fábrica movida à vapor; outros, anunciavam seus produtos: telhas, ladrilhos, etc, como os melhores do mercado, com premiações obtidas nas Exposições de 1873 e 1876.

 

 

PEDREIRO

Aquele que trabalha com a pedra - do lat. petra; esp. piedra, it. petra, fr. pierre. Há no latim a designação "cementarius", correspondente ao Mestre Pedreiro. A designação característica Ofício patronado pela Irmandade do Patriarca de São José. Os números que seguem, não incluem os Canteiros e os aparelhadores de pedras, evidentemente pedreiros, que irão citados em separado.

 

Os nossos primeiros mestres de obras, tentaram, no começo da nossa colonização, utilizar-se das técnicas construtivas de taipa de pilão, como foi o caso do Mestre Luiz Dias - enviado a Salvador em 1549, que informa as dificuldades que teve para conservar uma muralha que construíra de terra socada, que ruíra nas grandes chuvas. Diante de alguns insucessos e, na necessidade de defender o litoral com fortificações, pouco a pouco abandonavam-se as construções de taipa, pelo menos nas construções das fortificações, utilizando-se das muros de alvenaria de pedra.

 

"Depois de terem erguido a primeira Igreja e residência, descobriram os Padres [Jesuítas] da Baía em 1550 um oficial de pedreiro, degredado, que viera na Armada do ano precedente, chamado Nuno Garcia. (...)

Na armada de 1549 tinham vindo numerosos artífices construtores para a fundação da Cidade do Salvador, dos quais Rodolfo Garcia, além do arquitecto Luis Dias e seu sobrinho Diogo Peres, Mestre Pedreiro, inventariou 14 nomes de oficiais pedreiros. (...)

Os Irmãos pedreiros, sumamente estimados na Companhia [de Jesuítas], sempre foram poucos, não só no Brasil como em toda a parte. Ao abrir o terceiro quartel do século XVI dizia um Provincial de Espanha, quanto fervia o trabalho das grandes construções que «por um Irmão pedreiro daria uma dúzia de teólogos». Pedreiro naquele tempo era quase sinónimo de mestre de obras. Assim foi o Ir. Francisco Dias (v.n.) antes de ser arquitecto. E assim era Pedro de Carvalhais «pedreiro», nomeado mestre de obras da Cidade da Baía a 22 de Julho de 1556, falecido a 13 de Março de 1563

(Serafim Leite, Artes e Ofícios, 42-43).

 

No Recife, entre 1721 e 1725, encontrou-se a seguinte variação para o os jornais (salário diário) de Pedreiro: $320 rs., $360 rs., e $400 rs. (Smith, Documentos Baianos, 115). Para se ter uma noção dos tipos de pedras utilizadas na Construção Civil, em 1880, segue uma relação publicada por Cohen (Bases para Orçamentos, 158), em Lisboa:

  • Alabastro, Ardósia, Bagalto, Calcareo branco, calcáreo lioz, Calcáreo litográfico, Granito, Gres, Mármores calcáreos, Mármores magnesianos, Porfiro, Quartzite, Serpentina, Schisto, Sienite e Trachite.

 

Nos Almanaques Laemmert, há registros de proprietários de pedreiras, portanto, empresários dedicados ao ramo de construção, fornecedores das pedras necessárias à construções dos muros, fortificações, cantarias, etc. Entre as mais antigas pedreiras, cabe registrar a do Morro da Viúva, dos religiosos Beneditinos, sobre a qual, escreveu Vivaldo Coaracy:

 

1618 - Querendo os monges de S. Bento dar início à construção da sua igreja (...), solicitaram da Câmara que lhes fossem concedidas por aforamento vinte braças de pedreira no morro atualmente chamado "da Viúva" para dela extraírem a pedra necessária às obras. Em 9 de dezembro, a Câmara concedeu as vinte braças pedidas mediante o fôro anual de 200 réis a ser pago pela Ordem Beneditina.

(Vivaldo Coaracy - O Rio de Janeiro do Século XVII, 48)

 

No Rio de Janeiro quinhentista, registram-se 6 Pedreiros, entre eles, 1 (16 %) Mestre Pedreiro.

 

RIO DE JANEIRO - SÉCULO XVI
PEDREIROS
NOME DATAS OBS.: FUNÇÃO DOCUMENTADO
Francisco Gonçalves     Pedreiro 1571
João Ribeiro     Pedreiro 1573
Alvaro Fernandes     Pedreiro 1574
Francisco Dias (1538-1633) Religioso Pedreiro 1585
Simão Luiz     Pedreiro 1588
Pedro Alvares (1557-1636) Religioso Mestre Pedreiro 1589

 

No Rio de Janeiro seiscentista, registram-se 26 Pedreiros, dos quais 7 (27 %), chegaram a Mestres Pedreiros. Entre estes artífices, 1 (3,8 %) foi registrado como Oficial Pedreiro.

No Rio de Janeiro setecentista, registram-se 22 Pedreiros, dos quais 6 (27 %), chegaram a Mestres Pedreiros. Entre estes vinte e dois artífices, há 1 (4,5 %) Oficial Pedreiro e 1 (4,5 %) Juiz Pedreiro.

Finalmente, no Rio de Janeiro oitocentista, registram-se 61 Pedreiros, dos quais 23 (37 %), chegaram a Mestres Pedreiros. Entre as diversas funções destes artífices, registram-se:

  • 2 (3,2 %) Contra-Mestres de Pedreiros;
  • 2 (3,2 %) Juizes do Ofício de Pedreiro;
  • 3 (4,9 %) Oficiais de Pedreiro;
  • 1 Mestre Pedreiro do Senado da Câmara;
  • 1 Avaliador das obras de Pedreiro; e
  • 1 Escrivão do Ofício de Pedreiro.

Com relação aos registros do séc. XVIII, (22), houve um acréscimo de 39 (177 %) pedreiros. Não foram contabilizados entre estes: os aparelhadores de pedras (que seguem adiante); os canteiros (que seguem acima) e 23 proprietários de pedreiras.

 

RESUMO COMPARATIVO
CONSTRUTORES DA CIDADE
SÉCULO MESTRES DE OBRAS ARQUITETOS CARPINTEIROS MARCENEIROS PEDREIROS TOTAL
XVI 6 6 12 0 6 30
XVII 3 5 43 5 26 82
XVIII 21 13 44 16 22 116
XIX 245 120 274 384 61 1084

 

Nota: Continua: Os Mestres de Obras - IX [Os Mestres de Ofícios no Rio de Janeiro]

Fonte: Construtores da Cidade do Rio de Janeiro. 2 vols., 1000 págs. do mesmo autor: Carlos Eduardo Barata.

Minas, 28.06.1999 - Carlos de Almeida Barata

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