MESTRE DE OBRAS - VIII
[Estes antigos
Arquitetos]
[Os Mestres de Ofícios]
CONSTRUTORES DA CIDADE
DO RIO DE JANEIRO
MESTRE DE OBRAS -
MESTRE DE OBRAS - VIII
[Os Mestres de Ofícios]
CONSTRUTORES DA CIDADE
DO RIO DE JANEIRO
OLEIRO, FABRICANTE DE TIJOLOS
E TELHAS
Oleiro, do lat. ollariu (Antenor
Nascentes, Dic. Etimológico, I). Aquele que trabalha
em louças de barros, cuja oficina se chama Olaria
(do lat. olla) - casa onde se fabricam vasos e
quaisquer louças de barro. Local onde se fabricam
objetos com barro cozido. Sua bandeira tinha por
patronato a Irmandade de Santa Justa e Santa Rufina.
"Designam-se sob o nome de olaria
os productos cerâmicos fabricados com argila cozida;
classificam-se em olarias de pasta permeável á água
(terra-cota, faiança) e olarias de pasta impermeável à
água (grés, porcellana). As terra-cotas são pastas
argilo-arenosas, que soffreram uma cocção a baixa
temperatura: constituem os tijolos, as telhas, os tubos de
drenagem, os vasos para flôres, etc. Algumas qualidades
muito resistentes ao fogo, servem de productos refractários
para os fornos." (...)
"A olaria era já conhecida na
antiguidade; as escavações fizeram apparecer numerosos
exemplares da arte dos oleiros etruscos, gregos, persas, etc.
(Lello Universal, II, 465)
Tijolo, do lat. tegula, argila
ou barro amassado e moldado, em seguida sêco quer ao sol (tijolo
cru), quer ao fogo (tijolo cozido). São conhecidos desde a mais
alta antiguidade. Tem, geralmente, a forma de um paralelepípedo
de espessura uniforme e de arestas vivas. O fabrico do material,
em Olarias, compreende várias operações.
Há diferentes variedades de tijolos: escuros,
cinzentos e vermelhos; tijolos ingleses; tijolos circulares (para
a construção de chaminés); tijolos furados (para paredes de
interiores); tijolos refratários para paredes de fornos); etc.
O tipo "adobe", foi um dos mais
utilizados em residências e igrejas brasileiras dos séculos
XVIII e XIX: Fazenda Columbandé - século XVIII / adobe,
estrutura de madeira (São Gonçalo, RJ); e Fazenda da Baronesa -
século XIX / adobe (Campos, RJ).
ADOBE - Os adôbos são paralepedos de
barro com dimensões em torno de 0,20 x 0,20 x 0,40 m.
diferindo dos tijolos apenas por não ssrem cozidos no forno.
São compactados manualmente em formas de madeira e postos a
secar na sombra durante certo número de dias e depois ao
sol. Deve o barro conter certa percentagem de argila e areia
a que se juntam, por vezes, fibras vegetais ou estrume de boi
para melhor consistência dos blocos. São os adôbos
assentados e emaçados com barro, podendo receber reboço de
cal e areia.
(Del Breno - Arqitetura de Terra, 14)
Telha, do lat. tegula, de
tegere - termo genérico para designar uma peça de barro cozido,
de pequenas dimensões e sobretudo de pequena espessura, de
matéria, forma e cores variadas e empregada desde a mais alta
antiguidade para cobrir as construções; para fazer telhados.
São formadas por uma mistura de terra argilosa e areia,
fabricadas nas olarias.
Quanto à forma, distinguem-se, as telhas
côncavas, as chatas ou de Marselha (ou telha francesa), as
chatas com rebordos, as flamengas, as romanas ou de canudo, de
meia cana (telha canal, ou portuguesa, ou de Alhandra), de escama
(que se assentam como as ardósias), de concha, de lança, etc.
Vivaldo Coaracy, apresenta as olarias entre as
primeiras indústrias estabelecidas no Rio de Janeiro do século
XVII:
1634 - Localizadas ao longo do caminho
do Catete e junto aos barreiros existentes no Campo da
Cidade, eram fatôres necessários do desenvolvimento da
construção urbano. Mas as ruas ainda apresentavam numerosos
casebres de pau-a-pique, verdadeiras choupanas edificadas com
a madeira que os elementos pobres da polulação im cortar
nos mangues de São Diogo. Com o intuito de facilitar as
edificações de tijolo, as construções de alvenaria, a
Câmara fixou em 3$000 o preço do milheiro de tijolos e em
20$000 o do milheiro de telhas.
(Coaracy - O Rio de Janeiro do
Século XVII, 83-4)
Sobre a atuação dos Oleiros, nos subúrbios
cariocas, o processo de extração da argila, preparação das
pastas, moldagem ou cortagem e queima ou cozedura para o fabrico
do tijolo, leia-se:
- Magalhães Corrêa - OS OLEIROS -
Capítulo X, da grande obra "O Sertão
Carioca", publicada na Revista do Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro, Volume 167, Rio de
Janeiro, Imprensa nacional, 1933, págs. 127-135.
"A construção, na vasta zona do
sertão carioca, é caracterizada pelo que ha de mais
primitivo em habitação: rancho, casa de sapê, de sopapo,
pau a pique e frontal, o que vem reflectir na montagem da
olaria, que produz a verdadeira cerâmica da construcção e
tornou-se uma industria a mais rudimentar que se pode
imaginar, apesar do resultado ser o mesmo quanto ao fabrico
de tijolo, naturalmente menos lucrativo, em relação ás de
montagem moderna."
(Magalhães Corrêa, Os Oleiros, 129)
"Pelas posturas municipais da
Câmara [do Rio de Janeiro], em 1634, fica
determinado o limite de preços pelos quais era permetido aos
oleiros vender, telhas e tijolos de sua fabricação. Figuram
as olarias entre as primeiras indústrias estabelecidas no
Rio de Janeiro. Localizadas ao longo do Caminho do catete e
junto aos barreiros existentes no Campo da Cidade, eram
fatôres necessários do desenvolvimento da construção
urbana. Mas as ruas ainda apresentavam numerosos casebres de
pau-a-pique, verdadeiras choupanas edificadas com a madeira
que os elementos pobres da população iam cortar nos mangues
de São Diogo. Com o intuito de facilitar as edificações de
tijolo, as construções de alvenaria, a Câmara fixou em
3$000 o preço do milheiro de tijolos e em 20$000 o do
milheiro de telhas.
(Vivaldo Coaracy, Rio de Janeiro no Século
XVII).
Na Bahia, em princípios do século XVIII
(1716), um tijolo de alvenaria não se vendia por mais de "2
mil 4 centos e terá de grosso dous dedos e mais, de comprido
palmo e meio, digo a quatro mil e quinhentos reis posto no porto
desta cidade com o frete". O Tijolo de ladrilho, não se
vendia por mais de "dous mil e quinhentos o milheiro de
forma a qual de grossura de polegada, e meio digo a quatro mil
quinhentos com o frete". A telha se vendia a 3$300 rs.,
o milheiro de "três palmos de comprido, e hum de largura".
No Recife, entre 1721 e 1725, o tijolo de ladrilho custava 1$000
rs. o milheiro. (Smith, Documentos Baianos, 114-15).
Em 1880, em Lisboa, um milheiro de telhas
portuguesas, custava 10$000; a mesma quantidade de Telha de
Marselha, saía por 40$000. Na mesma ocasião, 1 milheiro
- de tijolos de alvenaria inteiro (0,28 x
0,14 x 0,03m), custava 6$000;
- de tijolo de alvenaria traçado, 3$600;
- de tijolo burro (0,24 x 0,12 x 0,08m),
10$000;
- de tijolo oco (0,24 x 0,12 x 0,08m),
10$000;
- de tijolo rebatido (0,30 x 0,17 x 0,03m),
a 10$000; e
- de tijolo refratário, a 28$000 (Cohen -
Bases para Orçamentos).
Sobre as condições das telhas, tijolos e
ladrilhos, usados na Construção Civil, segue as
especificações deixadas, em 1880, em Lisboa, por Cohen, também
válidas para o Brasil:
"Os tijolos e ladrilhos deverão
ser bem cosidos, leves, duros, sonoros, consistentes e não
vetrificados; terão as faces bem planas, as arestas vivas e
a pasta será bem comprimida e homogenea e isenta de
fragmentos calcareos."
"As telhas serão de boa qualidade,
bem cosidas, vetrificadas ao fogo e perfeitamente
moldadas."
(Cohen - Bases para Orçamentos, 187)
J. Wasth Rodrigues, em seu trabalho sobre
"A casa de moradia no Brasil antigo", ao falar sobre
tipos e processos de construção, informa:
"Outro tipo de construção muito
disseminado é o de adobe: tijolos de barro crú misturado
com capim, e secados ao sol, com 0,30 de comrpimento por 0,15
de altura e de largura, aproximadamente - como ainda os fazem
no sul de Minas. São ligados e rebocados também com barro.
Em algumas casas antigas, a parede era
constituída com duas ordens de esteios verticais, paralelos
e travados, sendo o vão cheio com adobe ou pedaços de pedra
e barro. Tinha assim meio metro ou mais de espessura. Este
processo foi muito usado em S. Paulo.
Alusões ao uso do tijolo e da telha no
Brasil já se encontram em cartas e documentos a partir da
segunda metade do século XVI.
(Wasth Rodrigues, A Casa de moradia, 167)
No Rio de Janeiro quinhentista,
registram-se 8 Oleiros.
| RIO DE JANEIRO -
SÉCULO XVI |
| OLEIROS |
| NOME |
OBS.: |
FUNÇÃO |
DOCUMENTADO |
| Duarte Martins Mourão |
|
Oleiro |
1569 |
| Sebastião Fernandes Leão |
|
Oleiro |
1578 |
| João Guterres |
|
Oleiro |
1589 |
| João Martins Castelhano |
|
Oleiro |
1589 |
| Francisco da Fonseca Leão |
|
Oleiro |
1594 |
| Sebastião Fernandes |
|
Oleiro |
1595 |
| Antonio Jorge |
Religioso |
Oleiro |
1598 |
| Antonio Leão |
|
Oleiro |
15-- |
No Rio de Janeiro seiscentista,
registra-se 2 Oleiros. Cabe registrar, que alguns dos oleiros do
século anterior continuaram atuando neste, além da oficina de
olaria, mantida pelos beneditinos.
| RIO DE JANEIRO -
SÉCULO XVII |
| OLEIROS |
| NOME |
OBS.: |
FUNÇÃO |
DOCUMENTADO |
| Tomé Antunes da Rocha |
|
Oleiro |
1626 |
| Leandro do Rosário |
Religioso |
Oleiro |
16-- |
| João Guterres |
No Rio de Janeiro setecentista,
registram-se somente 3 Oleiro.
No Rio de Janeiro oitocentista,
registram-se 38 Oleiros. Muitos deles, com fábrica movida à
vapor; outros, anunciavam seus produtos: telhas, ladrilhos, etc,
como os melhores do mercado, com premiações obtidas nas
Exposições de 1873 e 1876.
PEDREIRO
Aquele que trabalha com a pedra -
do lat. petra; esp. piedra, it. petra, fr.
pierre. Há no latim a designação "cementarius",
correspondente ao Mestre Pedreiro. A designação
característica Ofício patronado pela Irmandade do
Patriarca de São José. Os números que seguem, não
incluem os Canteiros e os aparelhadores de pedras,
evidentemente pedreiros, que irão citados em
separado.
Os nossos primeiros mestres de obras, tentaram,
no começo da nossa colonização, utilizar-se das técnicas
construtivas de taipa de pilão, como foi o caso do Mestre Luiz
Dias - enviado a Salvador em 1549, que informa as dificuldades
que teve para conservar uma muralha que construíra de terra
socada, que ruíra nas grandes chuvas. Diante de alguns
insucessos e, na necessidade de defender o litoral com
fortificações, pouco a pouco abandonavam-se as construções de
taipa, pelo menos nas construções das fortificações,
utilizando-se das muros de alvenaria de pedra.
"Depois de terem erguido a primeira
Igreja e residência, descobriram os Padres [Jesuítas]
da Baía em 1550 um oficial de pedreiro, degredado, que viera
na Armada do ano precedente, chamado Nuno Garcia. (...)
Na armada de 1549 tinham vindo numerosos
artífices construtores para a fundação da Cidade do
Salvador, dos quais Rodolfo Garcia, além do arquitecto Luis
Dias e seu sobrinho Diogo Peres, Mestre Pedreiro, inventariou
14 nomes de oficiais pedreiros. (...)
Os Irmãos pedreiros, sumamente
estimados na Companhia [de Jesuítas], sempre
foram poucos, não só no Brasil como em toda a parte. Ao
abrir o terceiro quartel do século XVI dizia um Provincial
de Espanha, quanto fervia o trabalho das grandes
construções que «por um Irmão pedreiro daria uma dúzia
de teólogos». Pedreiro naquele tempo era quase sinónimo de
mestre de obras. Assim foi o Ir. Francisco Dias (v.n.) antes
de ser arquitecto. E assim era Pedro de Carvalhais
«pedreiro», nomeado mestre de obras da Cidade da Baía a 22
de Julho de 1556, falecido a 13 de Março de 1563
(Serafim Leite, Artes e Ofícios, 42-43).
No Recife, entre 1721 e 1725, encontrou-se a
seguinte variação para o os jornais (salário diário)
de Pedreiro: $320 rs., $360 rs., e $400 rs. (Smith, Documentos
Baianos, 115). Para se ter uma noção dos tipos de pedras
utilizadas na Construção Civil, em 1880, segue uma relação
publicada por Cohen (Bases para Orçamentos, 158), em Lisboa:
- Alabastro, Ardósia, Bagalto, Calcareo
branco, calcáreo lioz, Calcáreo litográfico, Granito,
Gres, Mármores calcáreos, Mármores magnesianos,
Porfiro, Quartzite, Serpentina, Schisto, Sienite e
Trachite.
Nos Almanaques Laemmert, há registros de
proprietários de pedreiras, portanto, empresários dedicados ao
ramo de construção, fornecedores das pedras necessárias à
construções dos muros, fortificações, cantarias, etc. Entre
as mais antigas pedreiras, cabe registrar a do Morro da Viúva,
dos religiosos Beneditinos, sobre a qual, escreveu Vivaldo
Coaracy:
1618 - Querendo os monges de S. Bento
dar início à construção da sua igreja (...), solicitaram
da Câmara que lhes fossem concedidas por aforamento vinte
braças de pedreira no morro atualmente chamado "da
Viúva" para dela extraírem a pedra necessária às
obras. Em 9 de dezembro, a Câmara concedeu as vinte braças
pedidas mediante o fôro anual de 200 réis a ser pago pela
Ordem Beneditina.
(Vivaldo Coaracy - O Rio de Janeiro do
Século XVII, 48)
No Rio de Janeiro quinhentista,
registram-se 6 Pedreiros, entre eles, 1 (16 %) Mestre Pedreiro.
| RIO DE JANEIRO -
SÉCULO XVI |
| PEDREIROS |
| NOME |
DATAS |
OBS.: |
FUNÇÃO |
DOCUMENTADO |
| Francisco Gonçalves |
|
|
Pedreiro |
1571 |
| João Ribeiro |
|
|
Pedreiro |
1573 |
| Alvaro Fernandes |
|
|
Pedreiro |
1574 |
| Francisco Dias |
(1538-1633) |
Religioso |
Pedreiro |
1585 |
| Simão Luiz |
|
|
Pedreiro |
1588 |
| Pedro Alvares |
(1557-1636) |
Religioso |
Mestre Pedreiro |
1589 |
No Rio de Janeiro seiscentista,
registram-se 26 Pedreiros, dos quais 7 (27 %), chegaram a Mestres
Pedreiros. Entre estes artífices, 1 (3,8 %) foi registrado como
Oficial Pedreiro.
No Rio de Janeiro setecentista,
registram-se 22 Pedreiros, dos quais 6 (27 %), chegaram a Mestres
Pedreiros. Entre estes vinte e dois artífices, há 1 (4,5 %)
Oficial Pedreiro e 1 (4,5 %) Juiz Pedreiro.
Finalmente, no Rio de Janeiro
oitocentista, registram-se 61 Pedreiros, dos quais 23 (37 %),
chegaram a Mestres Pedreiros. Entre as diversas funções destes
artífices, registram-se:
- 2 (3,2 %) Contra-Mestres de Pedreiros;
- 2 (3,2 %) Juizes do Ofício de Pedreiro;
- 3 (4,9 %) Oficiais de Pedreiro;
- 1 Mestre Pedreiro do Senado da Câmara;
- 1 Avaliador das obras de Pedreiro; e
- 1 Escrivão do Ofício de Pedreiro.
Com relação aos registros do séc. XVIII,
(22), houve um acréscimo de 39 (177 %) pedreiros. Não foram
contabilizados entre estes: os aparelhadores de pedras (que
seguem adiante); os canteiros (que seguem acima) e 23
proprietários de pedreiras.
| RESUMO COMPARATIVO |
| CONSTRUTORES DA
CIDADE |
| SÉCULO |
MESTRES DE OBRAS |
ARQUITETOS |
CARPINTEIROS |
MARCENEIROS |
PEDREIROS |
TOTAL |
| XVI |
6 |
6 |
12 |
0 |
6 |
30 |
| XVII |
3 |
5 |
43 |
5 |
26 |
82 |
| XVIII |
21 |
13 |
44 |
16 |
22 |
116 |
| XIX |
245 |
120 |
274 |
384 |
61 |
1084 |
Nota: Continua: Os
Mestres de Obras - IX [Os Mestres de Ofícios no Rio de
Janeiro]
Fonte: Construtores da Cidade do Rio
de Janeiro. 2 vols., 1000 págs. do mesmo autor: Carlos
Eduardo Barata.
Minas, 28.06.1999 - Carlos de Almeida Barata