Carlos Tarakan
Curriculum


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CURIOSIDADES

LIBERDADE PARA OS ESCRAVOS [I]

 

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Quiseram, muitos, transformar o velho «Águia» em «Urubu». Pobre águia, uma das mais fortes e valentes aves de rapina, renegada a uma insaciável busca de carne em decomposição. Pobre «Águia», a de Haia, culpado por tudo o que se refere a destruição da documentação referente à escravidão.

 

Basta percorrermos perdidos alfarrábios, espalhados por diversos cantos deste país, para percebermos que a realidade não é bem a que se conta. O velho Águia de Haia (pseudônimo recebido pelo jurisconsulto e político brasileiro Ruy Barbosa), após expressiva atuação na 2.ª Conferencia Internacional de Haia [1907], parece, realmente, ter mandado destruir parte da documentação referente à escravidão, mas não tudo o que se refere ao assunto.

 

Assim, deixando de lado esta antiga discussão e, finalmente, entrando no tema que nos traz hoje à HCGallery, transcrevemos abaixo, como contribuição para a História da Escravidão, um interessante e documento em que um escravo tenta comprar a sua liberdade [23.08.1825].

 

 

ESCRIPTURA DE VENDA CONDICIONAL PARA LIBERDADE

 

Escriptura de venda condicional para liberdade, que faz Donna Joaquina Roza Silvana, viúva do falecido João Borges Valadares, Joaquim Carneiro da Silva Braga e Sutero Pardo.

Saibão quantos virem esta Escriptura de venda condicional para liberdade, no ano de Nosso Senhor Jesus Christo de mil oito centos e vinte e cinco, aos vinte e três dias do mes de Agosto [...] Província do Rio de Janeiro, [...] perante mim compareceu como Outorgante Donna Joaquina Roza Silvana, viúva do falecido João Borges Valadares, como primeiro outorgado Joaquim Carneiro da Silva Braga, e como segundo outorgado Sutero, pardo [...].

E pela outorgante Donna Joaquina Roza Silvana, viúva do falecido João Borges Valadares, foi ditto que entre os bens que possue do seu Cazal já avaluados e inventariado no Juizo de Órffãos desta Villa he o outorgado Sutero pardo, ao qual dezejando ella outorgante e mais herdeiros de seu falescido marido beneficiar com a liberdade, e não podendo fazer gratuitamente em Rezão de se achar o mesmo Cazal onerado de dívidas do ditto seu falescido marido.

E tendo o ditto seu Escravo, segundo Outorgado obtido a promessa de benefício do primeiro outorgado Joaquim Carneiro da Silva Braga
de o comprar pelo vallor em que no Inventário se acha avaluado, que he de a quantia de quatrocentos mil réis para elle segundo outurgado pagar lhe a mesma quantia da compra com os seos Serviços como se fosse de jornal a quantia de cinco mil réis para cada hum mes dos em que trabalhar ao primeiro outorgado, thé a instinção total do preço da Compra.

Se propos a obter como obteve licença judicial pelo Juizo de Orffãos com audiencia de todos os interessados ... e com a condição do primeiro outorgado receber em pagamento do preço da Compra, e para a liberdade do segundo outorgado todos os serviços que o mesmo segundo outorgado prestar a elle primeiro outorgado, como se fosse a jornal e a preço de $166 por dia dos em que assim o servir, contados da datta desta, e dos que no fim de cada hum mes o primeiro outorgado passar clareza de recibo ao segundo outorgado, e asim mais toda e qualquer quantia que o segundo outorgado em qualquer.

Tempo tenha e de ao primeiro outorgado em parte de pagamento
para mais depressa amortizar no preço total, e de que igualmente passará recibo, com essas condições e até logo que o segundo outorgado tenha pago ao primeiro outorgado o tutal preço de seu vallor, Sisa e dispezas feitas neste particular mostrando recibo do primeiro outorgado, com elles e esta Escriptura ficará o segundo outorgado gozando desse dia em diante de plena, geral, e inrevogavel liberdade como se liberto nascece do Ventre de sua mai sem nescidade de outro algum titulo.

Vende como com efeito vendido tem, o ditto segundo outorgado ao primeiro outorgado pela quantia de quatrocentos mil réis que do mesmo neste acto recebeu, e dessa quantia dá plena e geral quitação para do mesmo neste acto recebeu, e dessa quantia dá plena e geral quitação para nunca mais lhe ser pedida e por isso durante o tempo do pagamento e em quanto não tiver pago ao primeiro outorgado tudo quanto elle tem despendido e dispensar com a compra do segundo outorgado, fica este sendo em tudo e por tudo captivo do primeiro outorgado a quem deverá prestar e obdesser como seu Captivo, que fica sendo thé o instante ultimo em que fizer o tutal pagamento pois que a liberdade só lhe hé conferida e della poderá gozar do dia e hora em que ultimar o pagamento, por cujo motivo de si tira toda a posse e dominio e Senhorio que no ditto Escravo Sutero pardo, segundo outorgado tinha e o transfere com a ditta condição na pessoa do outorgado, para que o goze e possua como seu que fica sendo de hoje em diante [...]

E pelo primeiro outorgado foi mais ditto que elle em benefício do segundo outorgado já abate no preço total de quatrocentos mil réis, a quantia de sessenta mil réis,
que como esmola já dá por recebido da mão do segundo outorgado, e so fica o segundo outorgado restando a elle primeiro outorgado para a sua liberdade a quantia de trezentos e quarenta mil réis.

[Assinaturas: Joaquina Rosa Silva, Joaquim Carneiro da Silva Braga, Soterio Borges de Oliveira, João Correia dos Santos, Victor Cesar de Noronha, Joze Mariano do Amaral].

 

 

COMENTÁRIOS

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1. Pardo - Entende-se por pardo, «de cor entre o branco e o preto» [Aurélio, Dicionário, p.1045]. Pardo - Descendente de cruzamentos secundários entre mulato x mulato, crioulo x crioulo, mulato x mameluco etc., onde vigora mais a pigmentação morena ou tendendo a escrava [Diégues Júnior, Etnias e Culturas do Brasil, p.115] . No espanhol também existe pardo, que a Academia Espanhola tira do latim pardu, leopardo, por causa da cor, e que Pidal, Gram. Hist. Esp., filia a pallidu [Antenor Nascentes, Dic. Etimológico, I, 593].

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2. Onerado de dívidas - Torna-se este documento bastante interessante, pela particularidade de que, para saldar as dívidas deixadas pelo defunto Borges Valladares, houve necessidade de libertar [por escritura de venda] seu escravo Sutero. Este dispositivo nos leva a considerar, de forma um pouco exagerada, que foi o Sutero pardo quem salvou a família Borges Valadares dos credores. Vale quanto pesa. Seu preço, o da liberdade, também representou, para seus antigos senhores, a liberdade deles.

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3. De o comprar - Ao que parece, enquanto corria o inventário, já ciente das dívidas deixado pelo finado Borges, a família recebeu promessas de compras do seus escravos. Entre eles, o pardo Sotero, avaliado em 400$000 [quatrocentos mil reis], prometido para o primeiro outorgado, o Sr. Silva Braga.

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4. Pagar lhe a mesma quantia - É certo que o segundo outorgado, ou seja, o escravo Sotero, foi vendido ao novo proprietário, Silva Braga, pelo valor de 400$000 que, provavelmente, foram pagos à vista a Dona Joaquina Rosa, viúva do defunto endividado. Porém, um acordo entre o novo senhor e o seu novo adquirido, o escravo Sotero, foi feito. Este último, deverá pagar o mesmo preço de sua avaliação - 400$000, para obter a sua liberdade [ver item 6].

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5. Jornal - É bom esclarecer que Sotero não era jornalista nem pretendia pagar sua liberdade vendendo jornais. Na verdade, entende-se por jornal, o salário por um dia de trabalho. O pagamento por cada dia de trabalho: salário, jornal [Aurélio, Dic. 809]. Jornal - Do latim diurmale, "diário", o salário que compete por dia ao operário. Brachet apresenta a forma jornale numa carta merovíngia do século VIII [Antenor Nascentes, Dic. Etimológico, I, 441].

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6. Cada hum mes - Daí podemos calcular que a liberdade de Sotero lhe valerá 80 meses de trabalho, ou seja 6 anos e 8 meses, à razão de 5$000 por cada mes, até cobrir o total de 400$000, valor que lhe foi dado no inventario do defunto endividado.

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7. Para mais depressa amortizar no preço total - foi dado a Sotero a oportunidade de diminuir o seu tempo de trabalho, pagando ao seu novo proprietário, Silva Braga, outras mais quantias que pudesse obter, fora da sua jornada de trabalho.

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8. Como esmola - A dita esmola, que Silva Braga informa oferecer em benefício da liberdade do escravo Sotero, o abate em 12 meses, ou seja, 1 ano de trabalho. Restam-lhe 5 anos e 8 meses de trabalho para obter sua Carta de Liberdade.

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9. Soterio Borges de Oliveira - na assinatura final do documento, surge seu nome completo. O documento o trata sempre como Sutero pardo. Outra particularidade importante é que o escravo Soterio não era analfabeto e tinha muito boa caligrafia, pasme, melhor do que a da sua ex-proprietária.

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10. João Correia dos Santos - Assinou na qualidade de tutor dos órfãos.

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11. Victor Cesar de Noronha - Assinou na qualidade de curador dos órfãos.

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12. Joze Mariano do Amaral - Assinou na qualidade de curador do escravo Soterio.

 

Estado do Rio - Carlos Tarakan

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- Última Hora -

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ÚLTIMA HORA: LENINE ! Um Encontro Marcado. Fiquei de me encontrar com a Arte. A Arte de Lenine. Embora seja um encontro muito rápido, haverei de encontrar-me com a música, a poesia e o folclore nordestino.

Há poucos dias, fui um dos milhares de brasileiros que, assistindo o programa UM ENCONTRO MARCADO COM A ARTE, teve a oportunidade de ouvir cantar, declamar e falar, o músico Lenine.

Serei breve.

Chamou-me a atenção quando o ilustre poeta-compositor, ao se «Encontrar com a Arte», em dado momento disse: - "Quem trabalha com Arte é um Exibicionista por si só !".

Talvez eu não tenha entendido a sua posição. Teria se exibido por estar se «Encontrando com a Arte» ?, ou houve um equívoco no nome do Programa ? Talvez a resposta viesse mais adiante, quando o mesmo poeta-compositor, categoricamente, afirmou: «Não tenho a menor idéia de quem seja Lenine.». Talvez não saiba mesmo.

Mas não importa! Continuo um apaixonado por sua música, por sua poesia, desde a primeira vez que o vi, quando minha filha - meu elo com a juventude - levou-me para ouvi-lo, por volta de 1980 [eu com os meus 66 anos], no belíssimo Teatro Municipal de Ouro Preto [antiga Casa da Ópera]. Construído pelo contratador João de Souza Lisboa e inaugurado a 6 de junho de 1770, lá estávamos nós, no terceiro piso das galerias, no meio de grande e apreciável juventude, ouvindo, passados 210 anos de sua inauguração, o poeta pernambucano Lenine, que se orgulhava de sua gente e de seu grupo (que naquela noite denominava de "Barca").

Um Noé em busca das maravilhas do sul, ladeado por companheiros que, se bem lembro os nomes, eram Lula Queiroga, Bráulio ..., etc. [Carlos Tarakan]

 

 

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