UM TORREÃO & O CINEMA EM
MINAS GERAIS
HÁ 136 ANOS ATRÁS
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TorreaoM.htm
Em meu último artigo, ao falar do Livro de
assinaturas do baile da Praça Tiradentes, há 129 anos atrás,
iniciei falando das minhas peregrinações, em companhia de meu
pai e meu avô.
Assim, lembrei-me das minhas solitárias
peregrinações pela Zona da Mata. Muitas delas, com a finalidade
de divertir-me e descansar-me das longas cavalgadas, em cidades
onde houvesse um Cinema.
Porque a paixão pelo cinema ??
Tudo começou em 1928, quando eu tinha meus 14
anos de idade, e meu pai, tendo que ir a Ponte Nova, levou-me,
pela primeira vez, ao Cinema.
Tarde Sr. MARQUES !
Tarde Sr. Tarakan !
Nesta tarde, tive o meu primeiro contato com o
fundador de um dos maiores grupos de cinema, na Zona da Mata.
estava diante de um jovem empresário, de origem portuguesa,
Sr. Agostinho Marques, com cerca de 34 anos de idade que, naquele
mesmo ano, em sociedade com o Sr. Jayme Marinho, fundava o seu
primeiro Cinema.
Não me lembro qual era o filme, porém, desde
então, nunca deixei de Ter contato, sempre muitos proveitosos,
com este pioneiro da cinematografia, na Zona da Mata.
Passaram-se quase 15 anos. Por volta de 1942, o
velho amigo de meu pai, Sr. Marques, agora associado com a
família Santos [Grupo Camilo dos Santos, de Ubá], fundou um
novo cinema, na Cidade de Ubá. Pouco tempo depois, deixava de
existir a firma Agostinho Marques, e surgia, para o meu prazer e
de milhares de mineiros e viajantes, o grupo CINE BRASIL.
No final dos anos oitenta, eram mais de 60
cinemas, espalhados pela Zona da Mata, alcançando os confins do
Estado do Rio de Janeiro, com direito a Cinema no atual
Município de Varre Sai.
Graças ao velho amigo Marques, hoje repousando
em assento etéreo, pude Ter o mundo em minhas mãos, através
daquelas maravilhosas máquinas de fazer rir e chorar, e
sobretudo, sonhar.
Muitas das minhas cavalgadas, por terras
distantes e despovoadas, tinha por inspiração os envolventes
sonhos proporcionado por filmes vistos em alguma cidade
longínqua, todos de propriedade do grupo CINE BRASIL.
Ainda, como se fosse ontem, me lembro destes:
I - PONTE NOVA; Lá estive com meu
pai, em 1928, para a inauguração do primeiro cinema da família
Marques. Retornei em 1942, e assisti: - SANGUE E AREIA, com Juan
Galhardo, o ídolo de uma nação.
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II RIO CASCA Era uma pesada
edificação, esquina da rua Cônego Scott, com aparência de uma
caixa forte. No alto, em platibanda central, acima das laterais,
a chamada - CINE BRASIL.
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III PORTO NOVO Lá estive em
1951. Era uma grande sala de projeção, na qual estive presente
na inauguração, a convite do ilustre amigo, o Cavaleiro
Agostinho Marques. Faço questão de frisar Cavaleiro, por
naquele ano, ter sido agraciado, por Carta de 22.03.1951, com o
grau de Cavaleiro da Ordem dos Cavaleiros de São Sebastião e
Guilherme.
Houve missa. Um jovem padre benzeu a sala. Uma
encantadora banda tocava, alegrando toda a Cidade de Porto Novo,
que compareceu ao evento.
Me encantava a belíssima coleção de sete
cartazes que dominava o corredor lateral, que vinha acompanhada
das seguintes classificações: Muito Bom, Sensacional,
Espetacular, Formidável, Gigantesco, Grandioso e Colossal.
Naquele ano de 1951, assisti: 18 anos de
felicidade destruídos em 18 segundos. VIDA DE MINHA VIDA
com Farley Granger e Judith Evans.
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IV- ALÉM PARAÍBA Talvez uma das
menores salas de projeção. Adorava apear de meu cavalo,
deixa-lo preso em um poste fronteiro ao cinema, entrar, assistir
um filme, retirar-me após a sessão, montar meu saudoso
mangalarga marchador, e seguir para Angustura, a fim de visitar a
família Côrtes. No dia seguinte, cavalgava para Muriaé.
Era um pequenino prédio, com fachada
desprovida de qualquer decoração, apenas com duas janelas
circulares, e o título CINE BRASIL.
Sua fachada foi alterada para caracterizar a
existência do Cinema. Ainda me lembro do aspecto do velho
casarão que ali existiu, além das casas vizinhas, erguidas em
princípio do século. A da direita, a maior delas, tinha um
grande frontão triangular, com sótão e janelas de guilhotinas
em cachilhos.
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V MURIAÉ Depois de sair de Além
Paraíba, sempre cavalgava, por este «mundão», até alcançar
a pitoresca São Paulo do Murihaé. O Cinema um grande
casarão, com fachada simples, em estilo eclético, com certa
influência do Art-Decô. Havia um letreiro luminoso CINE
BRASIL.
Ficava, se bem me lembro, na rua Barão de
Monte Alto. Sua fachada lateral, parecia uma fortaleza,
desprovida de janelas. No segundo piso, no alto, próximo à
platibanda, abriam-se grandes óculos, ao todo 14, dispostos 2 a
2, em sete panos de parede. Infelizmente, passados alguns anos,
um destes óculos, o primeiro, transformou-se em uma janela
basculante. Havia um oitavo pano de parede, sem óculos, no qual
ficava o grande portal de saída dos cinéfilos.
A platibanda, que corria ao redor de toda a
edificação, coroando-a, era formada por diversas seções
geométricas, de diversos formatos.
Depois do filme, cavalgava para Miraí.
VI MIRAÍ Vindo de Muriaé,
passava sempre batido por Miraí, pois precisava chegar, sempre
na chegada da noite, em Dores da Vitória de Muriaé, no alto da
montanha. Lá, residia em uma das fazendas que pertenceu à
família Rodrigues, que se retirou para Carangola. No dia
seguinte, sempre ao alvorecer, visitava alguns amigos em
Patrimônio dos Crioulos e, em seguida, descia a serra, e me
dirigia para o CINE BRASIL, de Miraí, e assistia mais uma
sessão, antes de seguir viagem.
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VII SÃO JOÃO DE NEPOMUCENO O
Cinema - Espetacular casarão assobradado, em estilo eclético,
com dupla cimalha, acima delas, um frontão curvo, sobreposto por
outro frontão curvo, interrompido por robusto acrotério. Sobre
ele, no ponto mais alto do edifício, talvez uns 16 ms. de
altura, dominando a cidade, uma Águia.
A cavalo, sempre ao longe, procurava avistar
aquela altiva águia. Cheguei em São João Nepomuceno.
O prédio, dividido em três panos de parede,
todos vazados por grandes portas. As do primeiro piso, todas em
verga reta; as do segundo piso, em verga curva, as das laterais,
e em verga triangular, a central.
Lembro-me de Ter pago 1$000, a cadeira, para
assistir: - QUERO CASAR-ME CONTIGO com Sonja Henie e John
Payne.
VIII VISCONDE DO RIO BRANCO O
Cinema belíssimo pavilhão amouriscado, com
engraçadíssimas portas no primeiro piso. Prédio, datado de
1912, de dois pavimentos, com enorme frontão triangular, sem a
tradicional cimalha que separa o tímpano do pavimento que o
antecede.
Um grande óculo, no alto, destacava-se sobre
uma enorme janela circular, com 6 folhas que, ao longe, quando a
avistava, sempre lembrava-me o emblema do meu querido América
Futebol Clube.
Pontiagudos coruchéus marcam a extremidade do
prédio. Lembro-me de Ter assistido AVENTURAS DE MARCO
POLO com Gary Cooper.
IX PIRAÚBA Lá estive em 1943.
Era uma simples edificação, com a feição de um armazém. Em
sua fachada principal, lá estava sua marca: CINE BRASIL.
X SANTOS DUMONT O velho cinema
que cheguei a freqüentar, pegou fogo e o vento levou. Foi,
assim, construído um novo prédio para servir de Sala de
Projeção. Cercado pelo velho casario colonial de outrora,
ficava encravado em pequeno vale.
Encantei-me, uma vez, quando vi um velho
furgão, Ford, com a pintura de uma grande máquina
cinematográfica, na porta, e em sua carroceria, os dizeres: Carriço-Film.
Circulava a Cidade, com um grande alto-falante, anunciando os
filmes da semana.
Em 1943, quando lá estive, assisti: - O
GAVIÃO DO MAR com Errol Flynn.
XI VIÇOSA Era um belíssimo e
imponente prédio, em estilo clássico, com suas enormes
pilastras da ordem Coríntio, que rasgando os dois pavimentos,
sustentava enorme cimalha de três camadas. Encantava-me o
gracioso friso, com motivos florais na sua decoração, e cornija
com direito aos dentículos. Tudo quase rigorosamente seguindo os
preceitos das ordens da arquitetura clássica apresentada pelo
renascentista Vignola.
Em formato diminuto do que o normal, somente
sobre o corpo central, nascia um pequeno frontão triangular. No
mesmo corpo central, no primeiro piso, sobre a grande porta,
estava escrito: THEATRO. Sobre as portas dos corpos laterais
CINE, à esquerda, e ODEON, à direita.
A nova sala foi inaugurada em 1956.
Assisti Gunga Gim.
XII RAUL SOARES - Era ume pequena
edificação térrea, com apenas 4 portas de entrada, nelas,
pequenas portas, tipo estrado, à meia altura.
Tinha entablamento eclético, decorado,
encimado por pequeno frontão trapezoidal.
Construiu-se, depois, nova sala de projeção,
bem maior que a primeira. Houve uma tendência ao Art-Decô na
fachada.
Em 1941, quando ali estive, assisti: AS
AVENTURAS DE STANLEY AND LIVINGSTONE com Tracy, Kelly e
Greene.
XIII - BARBACENA Adorava chegar antes da
sessão, só para apreciar o pano de boca do Cinema, com grande
painel, nele pintadas dezenas de propagandas dos comerciantes da
Cidade. Era enorme. Poucas vezes vi esta manifestação
artístico-comercial.
Anotei algumas: Padaria das Famílias (ladeira
Tiradentes, 105), Dr. Brasil Araújo, Cirurgião Dentista (Pç.
Conde de Prados, 52); Cerâmica Vintena & Cia. (Av. Marechal
Floriano Peixoto, 284); Salão Brasil Exclusivamente para
Senhoras. Cabeleireiro: Sebastião Preto de Oliveira (rua Lima
Duarte, 11); Limousine de Luxo Barbacena a São João del Rei
[Tinha ponto no Hotel Aliança, Barbacena); Victorio Marteleto
Industrial Architeto (rua 7 de Setembro, 386); Alfaiataria
Salles (rua 7 de Setembro, 352); e o Posto dos irmãos Frad
Atlantic.
Em 1943, quando lá estive, lembro-me de Ter
assistido, pelo menos, estes dois filmes: ... E O VENTO LEVOU,
com Clark Gable e Vivien Leich; e MERGULHO NO INFERNO com
Tyrone Power, Anne Baster e Dona Andrews.
XIV CARATINHA Outra belíssima
edificação em estilo clássico com grande balaustrada no alto,
interrompida por um diminuto frontão curvo.
Em 1941, quando lá estive, recebi uma aula
sobre Cinema do Sempre que velho Mário Carvalho, seu gerente.
Alguns minutos de prosa, e outro filme para acompanhar-me nas
cavalgadas: LEVANTA-TE MEU AMOR com Ray Miland e Claudette
Colbert.
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XV BICAS Lá estive em 1943, e
assisti: - ALÉM DO HORIZONTE AZUL com Dorothy Lamour.
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XVI LEOPOLDINA Fabulosa
edificação, em estilo clássico, que sempre me fazia lembrar
algum Fórum de uma grande cidade de interior. Abaixo do grande
frontão, sobre o friso, lia-se: CINE THEATRO ALENCAR. Também
propriedade do grupo Cine Brasil.
Em 1943, quando lá estive, assisti A VOLTA DA
ARANHA NEGRA.
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XVII GOVERNADOR VALADARES Na
época, a mais moderna casa de projeção do grupo CINE BRASIL.
Magnífica, grandiosa.
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XVIII INHAPÍ Lá estive em 1941.
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XIX- UBÁ Finalmente, a Cidade Carinho,
que tantas vezes freqüentei, onde tinha a honra da hospitalidade
do Comendador Marques. Tive a grata satisfação de estar em sua
residência, por ocasião em que fora agraciado, por Carta de
25.04.1956, com a Comenda da Ordem dos Cavaleiros de São
Sebastião e Guilherme.
O Comendador Marques nunca me deixava ficar
menos de três dias na Cidade. Assim, a Cidade Carinho foi a
minha Cidade Cinema.
Lembro-me, uma vez, chegando de trem, ao ver o
grande cartaz PARAÍZO INFERNAL com Cary Grant e
Jean Arthur. Rapidamente, do estribo do trem, pulei para o
saudoso Cinema, hoje, como muitos, transformado em Assembléia de
Deus.
Também assisti MARIA ANTONIETA com
Norma Shearer, Tyrone Power e John Barry More.
Em 1945, assisti: GUADALCANAL, com Preston
Foster e Lloyd Nolan.
Em 1946, no mês de junho, assisti MODELOS
com Rita Hayworth, Jinx Falkenburg e Gene Kelly.
Em 1953, em novembro, assisti ROUXINOL DA
BRODWAY, um filme tecnicolor da Warner, com Doris Day e Gene
Nelson.
Foi na Cidade de Ubá que surgiu o Grupo Cine
Brasil. Há alguns anos antes, o Cinema vinha sendo explorado
pelo grupo Camilo Santos, na mesma praça Guido Marlière. Em
1931, ali funcionava um cinema, em prédios que pertenceram a
Antônio César dos Santos. Este, em 1948, já em idade
adiantada, vendeu suas propriedades a José dos Santos, que junto
ao Comendador Marques, vieram fundar o Grupo CINE BRASIL.
Pouco tempo depois, associavam-se a Joaquim da
Silva Porto, Francisco de Assis Júnior e Oswaldo Cruz.
O TORREÃO
Aquelas propriedades onde funcionava o CINE
BRASIL, formando um quarteirão, ficava na Praça Guido
Marlière, próximas da estação ferroviária. Destacava-se
entre suas benfeitorias, um velho Torreão octogonal, com janelas
ogivais em todas as faces, de aparência gótica. Encimado por
platibanda corrida. As janelas, eram todas em tipo guilhotina, de
cachilhos, com seis quadrados de vidro.
Sobrepunha-se ao cinema. Parecia fazer parte de
algum filme macabro, quiçá Frankstein. Talvez inspirado no
Corcunda de Notredame. As crianças, na praça, apostavam no
Torreão de King Kong.
Nem King Kong, nem o Corcunda e nem
Frankstein.
Seu filme chama-se Cesário Alvim.
Por volta de 1863, há 136 anos atrás e
cinco anos depois da emancipação de Ubá o café era o
sinônimo de dinheiro. Era o principal produto de exportação.
Naquela ocasião, o maior comprador de café na Praça de Ubá,
era o famoso político José Cesário de Faria Alvim ou,
simplesmente, Dr. Cesário Alvim.
Naquela ocasião, fez instalar uma máquina de
limpar café, situada na antiga Praça da Estação, hoje
denominada de Praça Guido Marlière. Diante do avultado capital
acumulado nas suas transações, era necessário construir um
estabelecimento seguro para o dinheiro coletado - uma espécie de
caixa-forte
Diante da necessidade estratégica do local e
da sua proteção, inspirou-se no espírito medieval das antigas
fortificações, e mandou construir o grande torreão. Do alto da
torre, dominava toda a região de Ubá, com 360 graus de visão.
O Grupo Cine Brasil, acabou. Os Marques
espalharam-se e expandiram-se em outros ramos. Do Cinema, para
uns, surgiu o vídeo, para outros o fliperama, e para outros as
maravilhosas imagens do mundo virtual. Com o sabor do
pioneirismo, marca registrada da família, funciona, hoje, na
Cidade de Ubá, um único provedor, espalhando, via Internet,
informação por todo o Mundo: denomina-se MICROMARQUES
não poderia ser outro o nome.
Quanto ao velho Torreão, ainda em mãos da
família, trocou sua antiga função por outra mais nobre. De
Banco à CULTURA. Abriga fabulosa e encantadora coleção de arte
naif, proprietário do Dr. Renato Braccini Marques, filho do
saudoso Comendador Agostinho Marques.
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O TORREÃO Centro econômico há
136 anos atrás
O TORREÃO Centro cinematográfico
há 51 anos atrás
O TORREÃO Centro de cultura e arte
há 1 mês atrás
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Por Carlos Tarakan.
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