Carlos Tarakan
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FOMOS PROPRIETÁRIOS DE UMA PARTE DE BRASILIA E JUSCELINO NÃO SABIA.

HÁ 72 ANOS ATRÁS

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Lembro-me quando meu pai, Constantin Pedro Tarakan, sempre me dizia ser proprietário de uma parte do Planalto Central, só não sabia eu, que este pedacinho de terra pertence, hoje, à Capital Federal.

Já, em 1813, quando meus antepassados ainda não haviam chegado ao Brasil, defendia-se a idéia de se construir a capital do Império no Planalto Central. O jornalista Hipólito José da Costa, em 1822, publicou:

 

«... edificariam ali uma nova cidade, começariam pôr abrir estradas que se dirigissem a todos os portos de mar, e removeriam os obstáculos naturais que têm os diferentes rios navegáveis, e lançariam assim os fundamentos do mais extenso, ligado, bem defendido e poderoso império que é possível que exista na superfície do globo no estado atual das nações que o povoam» [Correio Brasiliense].

 

Passados alguns anos, o douto historiador Francisco Adolfo de Varnhagen, nosso Visconde de Porto Seguro, de quem meu bisavô vangloriava-se de ter conhecido, fez publicar o seu Memorial Orgânico, pôr volta de 1839, onde debatia a idéia da mudança da capital do Império. Ainda, em 1877, o mesmo perseverante historiador, aventurou-se em uma viagem à Goiás, para tratar do mesmo assunto, elegendo a Vila Formosa da Imperatriz, antigo Arraial dos Couros, como o lugar ideal para a construção da nova capital.

Nesta ocasião, já conhecíamos - os Tarakan, tais paragens, para onde meus antepassados, esporadicamente, viajavam, por estradas de péssima qualidade de trânsito, a fim de levar gado para o interior de Goiás.

Meu bisavô, Nicolau Petrus Tarakan, por conta de várias destas viagens - segundo relatos de meu pai - tornou-se um apaixonado pelo Planalto Central, deixando-se abandonar-se no tempo, em suas longas estadias na antiga Fazenda Bananal, às margens do Rio Torto, na chamada larga do Bananal, ora denominada fazenda do Torto [hoje com seu predicado reduzido à granja], ora fazenda do Bananal, área desmembrada da antiga grande fazenda Brejo.

Já em 1848, eram bons amigos, o velho Nicolau e o abastado fazendeiro Pedro José de Alcântara, o proprietário da saudosa Fazenda do Brejo, na qual pastaram, por diversas ocasiões, nosso gado, de passagem, em seus campos de criação. Desde meados do século XIX, freqüentamos àquelas terras, as quais, parece que por influência de Nicolau, homem justo e com apurado tino para os negócios, convenceu o amigo Alcântara da necessidade de registrá-las, legalmente, antes que algum aventureiro - aliás, eram milhares deles - pensasse em lhe passar uma rasteira.

Temos, ainda, uma cópia deste registro que, por motivos históricos, transcrevemos abaixo:

 

20.04.1858

Declaração de humas terras que possue Pedro José de Alcântara neste município de Santa Luzia, para serem registradas na conformidade do regulamento de trinta de Janeiro de mil oito centos e cincoenta e quatro: - O abaixo assignado possue huma fazenda denominada - Brejo - contendo mattos de cultura, e campos de criar, distante desta villa des legoas, dividindo pelo Nascente com terras do Sobradinho pelo Espigão que verte para o Torto, pelo Poente pelas cabeceiras do Torto pelo lado de dentro, pelo sul da cabeceira do ribeirão - Vicente Pires - the hum corrigo do Vauzinho para baixo, cujas Terras possue parte por compra, e parte por posse desde vinte e dois de Fevereiro de mil e oitocentos e quarenta e oito, tendo de extemção de Nascente a Poente trez legoas e de Norte a Sul outras três legoas - Villa de Santa Luzia, vinte d Abril de mil oitocentos e cincoenta e oito -

(a): Pedro José de Alcântara, que escrevy e vy assignar. (a). Joaquim Felix Nogueira

- Pagou de registro reis mil e seiscentos e trinta e seis reis. Registrado no livro competente à fls. Quarenta e sete verso usq quarenta e oito aos vinte e um de Abril de mil oitocentos e concoenta e oito. O Escrivão. Pe. S. L. Estylita: O Vigário D. Faria.

 

Com o advento da República, ocasião em que raríssimas vezes subimos ao Planalto Central, já que nossos negócios se restringiam aos Estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, estabeleceu-se, na Primeira Constituição Republicana, a futura demarcação das terras da futura Capital Federal:

24.02.1891

Artigo 3.º - Fica pertencendo à União, no Planalto Central da República, uma zona de 14.400 km2, que será oportunamente demarcada, para nela estabelecer-se a futura Capital Federal.

Parágrafo único: Efetuada a mudança da capital, o atual Distrito Federal passará a constituir um Estado.

 

Brasília tornava-se uma realidade. No ano seguinte, o Vice-Presidente Floriano Peixoto foi nomeado para a Comissão Exploradora do Planalto Central, sob a chefia do diretor do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro, Dr. Luís Cruls, cujos relatórios apresentou em 1893 e 1896.

Naquela ocasião, lamentavelmente, não tínhamos mais notícias de Pedro José de Alcântara. Meu bisavô, já alquebrado pelo tempo, com os seus setenta anos, distante das suas viagens, apenas orientava-nos de que deveríamos comprar um pedaço de chão nas imediações da futura Capital Federal, e, se possível, em terras que foram de seu saudoso amigo.

Meu pai, Constantin Pedro Tarakan, na tentativa de cumprir com o desejo de seu avô, ao buscar informações sobre as terras da Fazenda do Brejo, soube não pertencerem mais ao velho Alcântara, que, naquele ano de 1902, estava em mãos da firma Lobo & Irmão, que executou o Governo da União por haver perdas e danos que lhe ocasionou àquele comissão oficial demarcadora do nosso Distrito Federal, então chefiada pelo citado engenheiro Luís Cruls.

A Lobo & Irmão obteve ganho de causa contra a União. Estava selado o nosso destino em terras planaltinas. Era uma questão de tempo: procurar, escolher e adquirir.

Enquanto corria o debate sobre perdas e danos na demarcação daquelas terras, aproximava-se a data comemorativa do centenário da nossa Independência. O Governo Federal, sob a batuta do Presidente Epitácio Pessoa, distante daquela peleja, determinou que fosse colocada a pedra fundamental da futura capital, como parte das comemorações do centenário, no local demarcado pela Comissão Cruls.

Enfim, em cumprimento do Decreto n.º 4494 de 18 de Janeiro de 1922, do Presidente Epitácio Pessoa, foi colocada a Pedra Fundamental da FUTURA CAPITAL DA REPÚBICA a cujos limites são: ao Norte com Dona Olívia de Almeida Campos e ao Nascente, Sul e Oeste com os doadores, na referida fazenda do BANANAL.

 

«No dia 7 de setembro de 1922, colocou-se o marco fundamental, hoje próximo à cidade satélite de Planaltina [e ao lado da Escola Agronômica]. Os loteamentos privados multiplicaram-se com a denominação de Brasília, Vila Federal, Salvia, Planaltinópolis e Platinópolos, até que o loteador [destes dois últimos empreendimentos privados], Deodato do Amaral Louly [em fins de 1927], descobriu que a maneira de obter a interiorização da capital brasileira para o Planalto Central, seria oficializar e incrementar ao máximo a colocação de terrenos urbanizáveis e minifundiários agrícolas, isso porque, embora fossem afixados editais em Londres, Paris, Berlim, Roma e Nova Iorque, não apareceu nenhum concessionário para exploração dos serviços públicos de transportes, água, esgotos, energia elétrica, gás e telefones, meio utilizado a época - concessão por 90 anos - em troca da construção sem ônus para a União, dos edifícios públicos» [Revista O Cruzeiro - Texto: Edison Torres].

 

A última transmissão de domínio da antiga fazenda Bananal depois Planópolis, data de 30.11.1927. Escritura lavrada pelo Tabelião da Vila de Planaltina, José Mundim Guimarães e transcrita no Registro Geral de Hipotecas da Comarca de Formoso, pelo Oficial Leolino Cesar de Souza -

 

«doação que fizeram o Dr. Gabriel Campos Guimarães e senhora D. Francisca da Ressurreição Lobo, brasileiros, proprietários e fazendeiros [cujo pai, que não chegamos a conhecer, havia sido o proprietário da fazenda], e Deodato do Amaral Louly e senhora D. Minervina de Souza Louly, brasileiros, proprietários, a Municipalidade de Planaltina, de uma gleba de terras situadas no imóvel Bananal, ou Larga do Bananal, para que as dividisse em lotes e, por sua vez os doassem a terceiros, a título de propaganda do Planalto Central do Brasil

 

O fazendeiro, Coronel Deodato do Amaral Louly, foi eleito Intendente Municipal do Município de Planaltina, nas eleições de 20.09.1927. Reconhecido na seção de verificação de poderes de 29.10; tomou posse, prestou o compromisso legal e entrou em pleno exercício do cargo a 01.11.

 

Hoje, comparando os antigos limites da grande Fazenda Bananal [clique aqui] com o plano Piloto de Brasília [clique aqui], percebe-se que toda a área de planejamento da zona urbana do dito Plano Piloto, esta assentada sobre as terras da Fazenda, que tinha os seguintes limites:

 

«O córrego Acampamento, o ribeirão Bananal - denominação dada à antiga Fazenda - diminuto trecho do Torto [já citado na escritura de 1858], o rio Gama, o Riacho Fundo e o córrego Guará, e pouco mais a oeste termina a ex-fazenda, ali delimitado o seu perímetro pelo Vicente Pires [também citado em 1858] e o Cana do Reino, e pôr valos até as cabeceiras do Bananal.»

 

Lembro-me, embora jovem [14 anos], quando o Planalto Central de Goiás, a título de propaganda, lançou um cartaz sobre a mudança da capital da República:

 

«[O Brasil necessita d] estradas de ferro e de rodagem; de braços para a lavoura; da exploração de riquezas fantásticas, do desenvolvimento do sertão e que, segundo a opinião dos mais luminosos estadistas, a mudança da capital da República para o centro do País, resolveria todos esses problemas».

 

Lembro-me, ainda, no mesmo ano de 1928, a forte propaganda governamental do Washington Luís, referente à Capital Federal. Em sua plataforma política, declarava:

 

«... uma rêde ferroviária, a entrelaçar as estradas umas nas outras, com o objectivo de ligal-as à CAPITAL FUTURA, no Planalto Central do Paiz, para onde ella tem que se mudar, pôr determinação do nosso PACTO CONSTITUCIONAL, e para satisfazer ás aspirações do Districto Federal, na sua organização definitiva em Estado. É TÃO NECESSÁRIA COMO O AR QUE SE RESPIRA [clique aqui]

 

A Municipalidade de Planaltina, em posse dos terrenos da Fazenda do Bananal, às margens do Torto, nos idos de 1928, iniciou a doação, a milhares de pessoas, a título de propaganda da capital federal para o planalto central de Goiás, de um ou mais lotes de terreno, no loteamento denominado PLANÓPOLIS, loteamento em uma área de 64 kms.

Finalmente, em 1928, meu pai decidiu adquirir algumas propriedades. A velha Fazenda do Brejo não era mais a mesma. O Alcântara havia desaparecido. Um aglomerado de gente se espalhava por aquelas paragens. Muitos loteamentos surgiram e, finalmente, meu pai, assustado, desistiu. O mesmo não ocorreu com um amigo, o depois Almirante Oswaldo Newton Pacheco, que o acompanhara nesta amarga aventura.

Oswaldo Pacheco, então morador em Bragança, PA, na rua Lauro Sodré, em março de 1928, adquiriu os lotes ns.16, 17 e 18, da quadra 750 de terreno Planópoles, com área de 500 ms, que confina pela frente com a projetada rua Santos, e pelos lados com quem de direito, tendo 10 metros de frente e desta os fundos 50 m, onde tocava em terrenos de terceiros, que faziam frente para a Rua Belo Horizonte. Os terrenos da direita, corriam até chegar a Rua Rio Xingu e, os da esquerda, até alcançar a Rua Rio Itapicuru.

Estas propriedades, avaliadas em 400$000, cada terreno, foram registradas na Secretaria de Seção de Propaganda do Planalto Central de Goiás do Município de Planaltina, Livro de Tombo n.10, às fls. 729, sob o número de ordem 1457.

 

«Deodato do Amaral Louly, Intendente Municipal de Planaltina, Comarca de Formosa, Estado de Goyaz, Planalto Central do mesmo Estado, Quadrante do Novo Districto Federal, pelo presente alvará e em virtude da lei n.º 120 de 07.03.1928, dôa ao Snr. Oswaldo Newton Pacheco, residente em Bragança, Estado do Pará, um lote de terreno, sob o n.º 18 da quadra 750, no lugar denominado Planópolis, na Fazenda do Bananal, situada nas margens do Torto, deste Município, com área ....» [clique aqui].

 

Passados alguns anos, depois de finalmente construída a Cidade de Brasília - obra que teve princípio, somente em 1956, no governo de Juscelino Kubitschek - meu pai encontrou, residindo no Rio de Janeiro, o Almirante Pacheco.

Parabenizando-o pelo investimento, ficou profundamente chocado ao saber que, por mais de trinta anos, o amigo Pacheco vinha lutando na Justiça, por uma indenização de suas propriedades, engolidas, como outras muitas, na construção da nova cidade.

Além da Fazenda Bananal, este drama passou à outros proprietários, com terras adquiridas no vale do Pipirapau, e nas fazendas Monjolos, Bom Sucesso, Lambary e Sítio Novo.

Escapamos desta amargura, porém, muitos ficaram trancafiados nesta arapuca, cujo drama, resumiu-me o saudoso amigo, Almirante Pacheco, lendo-me o seguinte manifesto [resumo]:

 

CONFERÊNCIA DOS PROPRIETÁRIOS DE LOTES URBANOS E AGRÍCOLAS NO DISTRITO FEDERAL

Adquiridos nos anos entre 1923 e 1937)

NA CIDADE DE BRASILIA

24.12.1985

DRAMA que teve princípio ao ser lavrada, a 31.12.1955, na cidade de Planaltina a escritura complementar da lavrada no Planalto das Esmeraldas, em Goiana, no dia anterior, sobre PLANOPOLIS, que a lei municipal planaltina n.º 84, de 03.01.1956, estendeu aos loteamentos das margens do rio Maranhão (Planaltinopolis) e do rio Pipiripau (Platinópolis), estes dois últimos loteamentos dolosamente omitidos pela Comissão - Goiana, criada intrusamente pelo governador, [...], criação que foi agasalhada na lei da NOVACAP, encomendada ao professor [...], pelo presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira, como este consta em "Porque Construí Brasília" mas encobre que a sua encomenda foi para desfazer a aprovação que exarara no correto parecer do consultor geral da república, [...]. Cumpre notar que, se JK não fosse levado pela conversa do governador e fizesse honrar o parecer que aprovara e estava certíssimo, teria sido descoberto o monstruoso estelionato contra Planópolis, o mais importante empreendimento da municipalidade de Planaltina, no vale do Bananal, que, aliás, foi escolhido para a construção de Brasília (plano piloto) por serem 3/4 partes - de propriedade da municipalidade, pensando-se que esta só distribuíra lotes na 1.ª planta, crime intelectualizado pelo médico [...], também banqueiro e foi quem arranjou o empréstimo para o pagamento do preço do crime de [...], a mulher deste, [...], filha de [...], [...] e [...]. É prova da execução criminosa a promessa de compra e venda lavrada em Luziania, em 15.04.1955, ato em que [...] e a mulher receberam Cr$1.200,000 (hum milhão e duzentos mil cruzeiros) em pagamentos do misérrimo saldo de terras na beira dos córregos do vale (3.424 Ha, saldo dos 21.460 Ha encontrados na medição de 1927, pelo engenheiro agrônomo, Joaquim da Câmara Filho) e os dois cidadões de Goiânia, evidentemente inseridos no "negócio" pelo governador e pôr [...], ficaram com mais do dobro, um terço para cada um. Em suma: a prova do estelionato dos três e do crime de favorecimento e falso ideológico do governador e seus secretários de fazenda e justiça, é graniticamente documental bastando estudar-se as escrituras de 09.03.1946, 15.04.1955, 30.12.1955 e 31.12.1955 e depois considerar-se o seguinte registro oficial, fornecido ao IBGE pelo secretário de fazenda, [...], signatário da escritura de 30.12.1955: [e segue a transcrição do texto da Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, vol. XXXVI - Goiás, pág. 78, letra j], etc...

 

Estado do Rio, 14.03.1999 - Carlos Tarakan