Carlos Eduardo de Almeida Barata
Curriculum


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SÚMULA GENEALÓGICA III

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4. CAUSA MORTIS - ÓBITOS

 

Em meu segundo artigo da «Súmula Genealógica», fiz alguns eslarecimentos sobre os Cemitérios, acompanhado de uma relação de alguns membros da nobreza brasileira, enterrados no Cemtério do Catumbí [São Francisco de Paula]. Rapidamente, alguém perguntou-me:

De que tipo de doenças morriam àquelas personalidades ??

Nem sempre, nos é posível saber esta resposta, porém, na muitos dos registros de óbitos consultados, apareceram alguns esclarecimentos.

Muitas das famílias daquels tempos passados, foram pegas de surpresa por diversas epidemias que assolaram o Brasil, tais como a febre amarela, a varíola e o cólera-morbo, que levaram milhares de brasileiros às sepulturas.

Estas epidemias não eram novidades em meados do século XIX, por ocasião da Lei que tornou obrigatório a criação dos Cemitérios. No decorrer do século XVII, e, diante das péssimas condições higiênicas que vivia a Cidade do Rio de Janeiro, elas se alastravam.

Sua propagação se dava de todas as maneiras, pois não bastando a insuficiência de homens especializados para tratá-la, as roupas e colchões que deram leitos às vítimas, ficavam expostas ao ar livre, os cadáveres da escravatura, predominantemente atingida, eram mal sepultados, beirando estradas e caminhos. Muitos destes escravos morreram de «bexigas» [varíola] gênero de doença infecciosa, febril, com erupção cutânea pustulosa.

Nos anos de 1613, 1643, 1662, 1665 e 1693, por exemplo, violentas epidemias de varíola assolaram a Cidade do Rio de Janeiro, levando a uma grande mortandade entre a escravatura e os indígenas.

Durante o Império, período em que surgiram os cemitérios, o Rio de Janeiro viu-se, novamente, assolado por epidemias de varíola, febre amarela e cólera-morbo.

 

«Quando no segundo quartel da centúria, nos últimos meses de 1849, registrou-se no Rio de Janeiro intenso surto de varíola, logo seguido de terríveis e devastadoras epidemias de febre amarela e de cólera-morbo que acometeram cerca de 10.000 habitantes, dos quais 4.000 faleceram, a municipalidade estava inteiramente desarmada para enfrentar a grave situação. Não possuíam, nem ela nem o Governo Imperial, nenhmu estabelecimento hospitalar para assistir os doentes pobres da comunidade e receber os infectados dos navios em quarentena no porto, e os que aodeciam em terra que, por contagiantes, não podeiam ser internados nos raros nosocômios de iniciativa privada em funcionamento» [Achilles Ribeiro de Araújo, A Assistência Médica Hospitalar no Rio de Janeiro no século XIX. Rio, 1992 - p.21]

 

Diante destes acontecimento, o Governo nomeou uma Comissão Central de Saúde, para combater esta calamidade. A mesma Comissão seria presidida pelo sanitarista Dr. Francisco de Paula Cândido, Catedrático da Faculdade de Medicina e Titular da Academia de Medicina. Aquela Comissão Central de Saúde, por Decreto de 14 de setembro de 1850 pasou a ser denominada de Junta Central de Higiene Pública.

A 6 de agosto de 1855, a Junta Central de Higiene Pública, então presidida pelo Dr. Paula Cândido, divulga sua «Instrução para médicos encarregados das vítimas preventivas»:

«Sendo reconhecido que o cholera-morbus raramente se manifesta de improviso, e que ao contrário na generalidade dos casos semelhantes padecimento se faz anunciar por sintomas precursores mais ou menos pronunciados, a Comissão Central de Saúde, considerando que as visitas preventivas, a exemplo do que se há observado em outros países muito podem concorrer para atalhar o progresso do mal, por isso especialmente as recomenda.

Os sintomas da enfermidade que primeiramente se declaram consistem em pertubações das funções digestivas, sendo porém, a diarréia segundo a observação geral, o mais constante desses sintomas, e que procede quase sempre o cólera ...»

 

É lamentável que, do século XVII ao século XIX, muito sofreu o País com o arrasamento de seus habitantes que, indefesos e, por negligência das autoridades maiores, viram seus familiares falecerem por falta de atendimentos adequados e, por vezes, por falta de médicos e, até mesmo, de hospitais.

São estes acontecimentos que nos entristecem, deixando-nos com os corações enfermos, quando vemos que o «velho» é sempre moderno, que o passado não está tão longe quanto pensamos pois, ainda hoje, em pleno final do século XX, o mesmo cólera continua fazendo vítimas nas camadas mais baixas da população, mais uma vez, aquela classe desprivilegiada, que fulminantemente baixa à sepultura, sem mesmo saber o que as levou.

E os nossos hospitais ?

  • Em 1850 inauguravam os Lazaretos da Ilha do Bom Jesus e do Saco do Alferes, além do Hospital de Nossa Senhora do Livramento, destinados a receber os enfermos.
  • Em 1851 inaugurarva o Lazareto de Jrurujuba, mais tarde batizado com o nome de Hospital PAULA CÂNDIDO, em homenagem àquele sanitarista.
  • Em 1852 inaugurava-se a 1.ª Enfermaria, no então caminho de Copacabana, a fim de atender aos habitantes de Botafogo e Copacabana.
  • Em 1852, instalou-se na Casa de Saúde do Doutor Peixoto (Antonio José Peixoto), a 2.ª Enfermaria, a fim de atender à população da Gamboa e adjacências.
  • Em 1855 come\cou a funcionar a 3.ª Enfermaria, em uma antiga Chácara do Morundu, destinada a atender à região de São Francisco Xavier do Engenho Velho.

 

Neste último ano, 1855, alastrava-se pela cidade a epidemia do cólera-morbo, tornando-se, dois meses depois, catastrófica, e durou até 1867.

Sobre a história e as conseqüências destas epidemias, o Dr. José Pereira Rêgo, futuro Barão do Lavradio, fez publicar, em 1872, o seguinte trabalho:

«Esboço histórico das epidemias que têm grassado no Rio de Janeiro desde 1830 até 1870»

«Nada foi mais mortífera do que esta epidemia. Nada foi mais pestilencial do que esta doença. Nada foi mais terrível do que este fragelo. A cronologia nosológica brasileira marcou esta epidemia com o apelido de peste.» [Manuel Xavier Vasconcellos Pedrosa. A Cólera Morbo e a Ordem da Rosa. Anais do Congresso de História do Segundo Reinado. Rio, 1984 - pág. 143]

 

Entre as vítimas atingidas por estas epidemias, de 1850 a 1856, que fazem parte das principais árvores genealógicas daquele tempo, por exemplo, cito:

  1. Comendador José Thomaz Nabuco de Araújo, falecido a 18 de março de 1850, no Rio de Janeiro, vitimado por febre amarela.
  2. Dr. Luiz Inácio Nascentes de Azambuja, falecido a 14 de janeiro de 1854, no Rio de Janeiro, vítima de febre tifóide.
  3. Josefa Maria Batista Roquette Franco, falecida a 17 de novembro de 1855, em Petrópolis (RJ), vítima do cólera-morbu.

 

Em 1882 retornava a epidemia de varíola; em 1889, a febre amarela; em 1891, novamente a varíola; e por volta de 1919, a epidemia de gripe espanhola. Somente em 1889, a febre amarela matou 18.485 indivíduos.

Algumas vítimas destas epidemias:

  1. Nicolau Antonio Calmon Nogueira da Gama, neto do Conde de Baependi, faleceu aos 17 anos de idade, a 20 de fevereiro de 1886, vítima de febre amerela.
  2. Maria do Carmo de Oliveira Figueiredo, bisneta do Marquês de Sapucaí, faleceu aos 7 anos de idade, a 3 de fevereiro de 1903, vitimada de febre amarela.
  3. Engenheiro Joaquim Silvério de Castro Barbosa, faleceu em outubro de 1919, no Rio de Janeiro, vitimado pela epidemia de gripe.

 

Alem destas doenças, de caráter epidêmicos, pudemos tirar de alguns livros de óbitos outra variedade de doenças, que levaram ao falecimento inúmeros brasileiros.

A importância de se pesquisar estas velhas doenças, em registros de óbitos, não é uma novidade. Outros estudiosos têm se preocupado com estes assunto. Em um dos Mensários do Arquivo Nacional, a pesquisadora Thalita O. Casadei assina um interessante e importante trabalho entitulado: «Velhas doenças nos velhos livros de óbitos.»

Não há razões para desenvolvermos aqui, um texto mais detalhado sobre a importância destes estudos no slivros de óbitos, se já o fez, com profundidade, a Prof. Casasei. A mim, resta transcrevê-lo:

«A História da Medicina ficará enriquecida quando seus cultores atentarem mais para as informações que os registros de óbitos podem oferecer. Em muitos assentamentos aparecem não só as doenças que causaram a morte dos paroquianos, como as mais diversas maneiras em que o óbito ocorreu. O livro de óbito é uma fonte primária muito utilizada pelos estudiosos da Genealogia, pois, mais que os livros de batizados, fornecem dados preciosos para a organização das árvores genealógicas das famílias da sociedade brasileira.. Cabem ao Vigário, ou ao Sacristão, as anotações sobre o morto e sobre a causa mortis, esta nem sempre presente em todos os assentamentos pesquisados.» [Thalita O. Casadei, Mensários do Arquivo Nacional, Ano VIII, Julho de 1977, n.º 7 - pág. 12].

 

A pesquisa da Prof.ª Casadei se realizou na região de Campanha, sul de Minas Gerais, tomando como amostra um livro de óbitos do início do século XIX. Neles encontraram diversas causas mortis, entre elas, a «mordida de cobra», «dor no peito», «hidropsia», «inflamação do bofe», as diversas formas de febre, além de se morrer «de velhice».

O Dr. Jorge Godofredo Felizardo, médico renomado genealogista, foi outro pesquisador preocupado, com as questões da hereditariedade em seus estudos genealógicos e, em alguns casos, teve por fonte, os livros de óbitos. Defende, este autor, a importância da genealogia no estudo e interpretação dos fenômenos biológicos observados através dos quadros genealógicos dos ascendentes, «porque as qualidades quer morais, quer físicas, tiveram um ponto de partida e pela hereditariedade será determinado o seu autor».

Godofredo Felizardo [Um Caso de Xifopagia no Rio Grande do Sul. Anais do III Congresso sul-rio-grandense de História e Geografia - pág. 985] cita o trabalho de Forts de Battaglia, onde é feita a abordagem dos problemas concernentes à hereditariedade, denominado de «implexos dos antepassados ao quadro de ancestrais que formam os costados, deduzindo a importância que até hoje conserva a endogomia.»

Este artigo do dr. Godofredo Felizardo, intutulado «Um Caso de Xifopagia no Rio Grande do Sul», originou-se, devido as suas pesquisas genealógicas realizada no Livro 3.º de óbitos da então Vila do Rio Pardo, Rio Grande do Sul, onde encontrou o seguinte assento:

 

«Maria e Anna - Aos tres dias do mez de Junho de mil sete centos noventa e tres annos nesta Freguezia do Rio Pardo se sepultarão Anna e Maria, inocentes, que nasceram juntas, e unidas tendo duas cabeças, e dous peitos, mas uma só barriga, sendo contudo o mais criaturas perfeitas: batizarão-se e só duas horas estiverão vivas, filhas legítimas de Antonio de Crasto Monteiro e de sua mulher Anna Maria da Silveira; forão encomendadas pelo Reverendo Padre Coadjutor Duarte Mendes de Sam Payo, e forão sepultadas dentro desta Matriz. De que para Constar fiz este assento que assignei. Vig.º Manoel Marques de S. Payo» [Rio Pardo- Livro 3.º de Óbitos, fls. 20v]

 

Fonte: Revista e ampliada da obra: Presidentes do Senado no Império. Uma Radiografia Histórica, Genealógica, Social, Política e Diplomática do Brasil Imperial. 1997 - 783 págs. do autor: Carlos Eduardo Barata.

 

Minas, 26.05.1999 - Carlos de Almeida Barata

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