Carlos Eduardo de Almeida Barata
Curriculum


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SÚMULA GENEALÓGICA IV

. SÚMULA GENEALÓGICA

 

NECROLÓGIO

 

Entende-se por «Necrológio», palavra composta do grego nekrós, morto, e lógos, discurso, artigo, acrescida do sufixo "io".

Por volta do século XVIII, intitularam-se de «Necrol\ogio» as obras destinadas à traçar as biografias, quase sempre em tons elogiosos, dos grandes homens, que, recentemente falecidos, eram merecedores de elogios.

 

«Quando no século VI os diptycos cessaram de estar em uso, foram substituídos pelos necrológios. Chamavam-se assim uns livros redigidos em latim, onde, nas egrejas e mosteiros, se inscriviam os nomes dos defuntos, bispos, dignatários do capítulo, abbades, monges e bemfeitores leigos, dos quaes se fazia memória no offício» [Encyclopédia e Diccionário Internacional Jackson, Vol. XIII, pág. 7800]

 

Entre as fontes básicas para encontrá-los, quando não fossem publicados pequenos "opúsculos"de características necrológicas, citam-se as notícias dos grandes jornais, entre os antigos, o Jornal do Commércio, ou os Almanacks Laemmert, publicados a partir de 1844.

Ao citar pequenos "opúsculos"de características necrológicas, refiro-me ao costume, que me parece já não existir mais, de publicá-los, ou no mesmo ano ou no seguinte, ao falecimento, de forma que se possa conhecer maiores detalhes sobre o "saudoso"amigo ou familiar. Estes grandes elogios, quando emocionados, o que na maioria das vezes o eram, nem sempre encontravam tantos espaços diponíveis nos jornais.

Por ocasião do falecimento do Marquês de Valença [Estevão Ribeiro de Rezende], por exemplo, publicou-se em 1856 - ano do seu falecimento - com 45 páginas, sem o nome do autor, o seguinte opúsculo: ESBOÇO BIOGRÁPHICO - O MARQUEZ DE VALENÇA [Rio de Janeiro, Typ. Imp. e Const. de J. Villeneuve e Comp. - Rua do Ouvidor, n.º 65].

O bibliógrafo Sacramento Blake, não faz nenhuma referência a este opúsculo, em sua obra - Diccionário Bibliográphico Brazileiro, Rio, 7 vols.. Foi identificado como sendo de autoria de Adolpho Bezerra de Menezes. Consta de um retrato litografado por A. de Pinho - «lith. Imp. de Rensburg».

Principia esta homenagem da seguinte forma:

 

(p.5) "Em 8 de Setembro de 1856 baixou à sepultura Estevão Robeiro de Rezende, marquez de Valença, conselheiro de estado, senador do império. Artigos biographicos publicados nas folhas diárias disserão à geração de hoje, essa que não menos do que a de Roma dos Cesares merece a triste qualificação de incuriosa suorum, o que tinha sido a bem (p.6) da pátria e da humanidade esse ancião que, no meio do pranto de sua família e da consternada saudade de tantos amigos, se retirara da afanosa peregrinação da vida para a mansão da eterna justiça. Mas às cinzas do último membro do antigo conselho de estado, do último senador da primeira nomeação, é devido tributo de maior homenagem do que ephemeros artigos, lidos pela manhã, e à noite esquecidos. A passagem do homem de bem, do patriota desinteressado, deve deixar um rastilho de luz que chame para sua memória a atenção da posteridade; que lhe sirva de exemplo e de incitamento. A recordação das virtudes do marquez de Valença não deve ficar concentrada, embora ahi eterna seja, no seio da sua família; essa parte da sua herança pertence à pátria brazileira; cumpre entrehar-lh'a.»

 

Tomando, ainda, outro exemplo, por ocasião do falecimento do Barão do Lavradio, Dr. José Pereira Rego, foi publicado o seu necrológio, pelo Dr. Soeiro Guarany. Membro Titular da Academia Nacional de Medicina, e publicado em 1893, com 28 páginas, teve o interessante título: DISCURSO BIOLÓGICO SOBRE O BARÃO DO LAVRADIO:

 

«Nem sempre, Srs. Acadêmicos, os indefesos peregrinos da terra quando chegados ao último marco da romagem humana atufam-se nos mysterios insondaveis da morte, ficando esquecidos no 'umulo que abre-se para receber-lhes os desejos, os feitos mais ou menos ruidosos que os recommendem à gratidão e à benemerencia das gerações posthumas.

Com effeito a morte é uma violencia cruel; ella golpeia-nos fundo o coração segregando-nos para sempre dos entes que nos são caros, para quem porém continuamos a viver pela saudade, esse sentimento mystico, lenitivo poderoso como a esperança das dôres que cruciam-nos a alma, élo ao mesmo tempo inquebrantável da infinita cadeira que une a vida à morte, os que sobrevivem áquelles que cedo ou tarde evoluiram em espírito para os páramos da eternidade.»

 

Como terceiro e último exemplo, recorro-me a Manfredo Leite, Membro da Academia Paulista de Letras, quefez publicar um pequeno folheto de 18 páginas, sobre a Princesa Isabel, intitulado: ORAÇÃO FÚNEBRE NAS EXÉQUIAS DE D. ISABEL A REDEMPTORA»:

 

«Não ha, de facto, ensinamento mais podero so e forte do que o ensinamento do túmulo, entreaberto para receber os miseros despojos humanos. Baliza levantada entre o tempo e a eternidade, é sempre o tumulo, seja embora o sarcophago dos Pharaós, seja embora o monumento do Escurial, seja embora o raso coval do obscuro indigente, é sempre o túmulo um golphão tenebroso, assignalando o estágio em que succumbe o transitorio e resurge o definitivo.

E a beira desse golphão e junto desse estágio detem-se o espírito para meditar, recolhe-se a consciencia para analysar, repousa o coração para sondar, investigar, perguntar e ouvir. Desenrolam-se então duas regiões bem diversas e bem oppostas: uma que acaba nas fronteiras terrestres, outra que abre para as fronteiras do invisível e do além.»

 

Fonte: Revista e ampliada da obra: Presidentes do Senado no Império. Uma Radiografia Histórica, Genealógica, Social, Política e Diplomática do Brasil Imperial. 1997 - 783 págs. do autor: Carlos Eduardo Barata.

 

Minas, 26.06.1999 - Carlos de Almeida Barata

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