Assim como o Barroco, de que trataremos em próximo mês, também o Maneirismo teve seu reconhecimento neste século, ainda mais tardiamente, como o estilo que teria em Miguel Ângelo seu ponto de referência inicial, preenchendo principalmente a segunda metade do Séc. XVI, ou seja, entre Alto Renascimento e o Barroco, em linhas gerais.
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Cada vez mais nas suas vertentes artísticas, literatura, música, artes plásticas, Maneirismo passou de um estilo de transição, assim era comumente conhecido, para um movimente próprio, ainda que sejam nele apontadas algumas características do genericamente chamado Renascimento, enquanto antecipador de temas e formas do Barroco, a saber a transitoriedade das coisas e da vida, o culto do contraste, o engano e desengano existencial, o "concetto", a metáfora, a agudeza e as formulações verbais.
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Para tanto são empregadas distorções preciosistas; o lúdico, revela / esconde; a reflexão combinada com a livre expressão, o escapismo e a fuga ao dramático; a transcedência para burlar os limites, o que leva a efeitos surpreendentes.
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A origem da criação artística situa-se fora da natureza ou pelo menos além dela e o anseio de expressão artística configura-se como um meio de escapar a um mundo alienante e duvidoso.
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O Maneirismo não se deixa limitar pela clareza e harmonia, comum ao período anterior, deixando-se entregue à inorganicidade, à divisibilidade (as partes mantêm seu valor independentemente do todo), à heterogeneidade, à coordenação, abertura do sistema e à falta de unidade, que são, mais do que características, atitudes que consubstanciam a imagem do labirinto.
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Se o Clássico é Apolo, condutor do carro do Sol, que preside à arte disciplinada, claramente delineada e formalmente precisa, em contraposição o Maneirismo é Dioníso, impulsivo e indisciplinado, passional, obscuro e rebelde ao formalismo, como que inebriado pela dualidade e pela sensação, para usar a dicotomia estética nietzschiana dionisíaco / apolíneo.
E em que consiste a mimeses maneirista?
Primeiramente, a arte que não mais seria cópia da natureza, segundo a rigorosa acepção clássica. Rompe-se com a unidade de imitação ao privilegiar-se o ato de criar.
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Como nos esclarece Hauser, "a arte cria, não da natureza como a natureza". Ao invés da anterior linha de continuidade, persegue-se a curva caprichosa e uma série de variações como manifestação de distância frente ao modelo que, ainda valorizado, escapa ao artista pela sua impotência em atingi-lo.
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Imitar torna-se no Maneirismo, sob a aparência de uma retomada dos grandes temas e padrões, uma arte da diferença, contornando-se o modelo, ainda que sem fugir à sua influência.
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Perante o legado do mestre, o maneirista entrega-se a variações sobre uma particularidade que é desmesuradamente aumentada e se torna o centro de uma nova criação, que nada mais tem a ver com o modelo.
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Assim, o artista encontra sua identificação na arte da fuga ou das variações e através da diferença afirma sua personalidade.
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Entre o criador e o modelo sobressai uma relação contraditória de deferência e de agressividade, a denominada imitação diferencial, que oscila entre o desejo de identificação fundada no mimetismo e o desejo de uma mudança relativamente aos padrões estabelecidos.
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Esta dualidade gera um sentimento de instabilidade e tensão que, em vez de ser superado, antes é exacerbado e constantemente preservado, atitude que, relativamente ao modelo clássico, acaba pôr transformar-se numa espécie de complexo, cuja origem provém da impotência em superar os limites a transpor.
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Essa ambiguidade atração / repulsa provoca um clima de neurose, uma consciência de fracasso e revolta frente às contingências difíceis de superar.
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Esta inútil tentativa de se libertar das sujeições manifesta-se pela tendência em considerar a arte como um jogo (instinto lúdico) e produz temperamento de caráter saturnino e melancólico.
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O mundo das formas assim determinado é, propriamente, o que os psicanalistas chamam um "universo" de substituição", mundo artificial, que ocupa o lugar simultaneamente do mundo exterior rejeitado e do formalismo clássico herdado e negado.
O Maneirismo, portanto, antes de ser forma é uma necessidade psíquica de se insurgir contra a história e o tempo, a natureza, e também de se vencer o desespero causado pêlos limites do conhecimento humano, enfim, pela crise pateticamente vivenciada, antecipadora da instalação de sistemas políticos liberais.
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E por ser o nível da criação artística profundamente emocional, o drama do Maneirismo está justamente em esconder por todos os meios essa emocionalidade, que acaba por manifestar-se por difíceis formulações dialéticas, contrastes paradoxais, gosto pelo insólito, redundando em uma notável falta de coerência formal.
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A obra é resultado de um modo de produção em que tese e antítese chocam-se numa conflituosidade exaustiva, reflexo da impotência em encontrar a unidade e identidade do assunto, de que resulta a forma de paradoxo com que são enunciados os problemas e o dilema de uma existência em si conflitante, assim como a ambivalência de todas as atitudes humanas.
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O Maneirismo impõe-se pela frustração, fruto de uma carência de identidade - a verdadeira vida está ausente - que a obra de arte evidencia acentuado essa falta e provocando o mesmo efeito de vacuidade no objeto que resume, amplia e torna visível esse vazio: o sujeito minimizado expõe sua impotência e, em conseqüência, valoriza o objeto, o modelo que se pretende apenas reproduzir.
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Assim, a obra ao apropriar o objeto engendra uma permuta de qualidades para tornar-se expressão de uma falta e de um questionamento em que, na dialética ser / parecer, e sujeito / objeto, não há uma introjeção do objeto, mas a projeção do sujeito.
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A próppria variedade estilística do Maneirismo testemunha essa atitude de transiência em amplos limites e através de diferentes técnicas, consubstanciano um objeto cuja finalidade não é criar uma ilusão total nem reproduzir o modelo sem distorção.
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Esta introdução, que pode parecer longa, mas que está extremamente sintética, impele-nos a continuar no próximo mês esta trajetória em torno do estilo que nos dará a conhecer poetas como da epígrafe, também Shakespeare, Ronsard, pintores como Miguel Ângelo, Parmigianino, Rafael, El Greco, Veronese, Tintoretto e músicos dos Cancioneiros do final do século XVI.
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"Bibliografia básica e de fácil consulta".
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Artes Plásticas:
Battisti, Eugênio. Renascimento e Maneirismo. Lisboa, Verbo, 1984
Hauser, Arnold. História Social de la Literatura y el Arte. Madri, Guadarrama, 1968 ( Há edição em português ).
Música:
Candé, Roland. História Universal da Música. S.Paulo, Martins Fontes, 1994, 2v.
Literatura:
Carpeaux, O . Maria. História da Literatura Ocidental, Rio de Janeiro; O Cruzeiro, s/d, 9v. ( Há edição mais recente ).
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Por Antonio Basilio Rodrigues