Antonio Basilio Rodrigues
Curriculum


MANEIRISMO - II

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Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,

Todo o mundo é composto de mudança,

Camões

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O Maneirismo, cujo início é considerado por volta de 1520, na Itália, conheceu rapidamente acatamento em boa parte da Europa, expandindo-se como manifestação de um novo "temperamento" e refletia o que se poderia dizer uma contrafacção ao antropocentrismo renascentista - a chamada crise do Renascimento - e o homem que era tido como o centro do mundo vai agora revelar um cosmo labiríntico, contraditório, incoerente e caótico, que resulta em manifestações, artísticas, principalmente, de discrença, de pessimismo, de nostalgia e de instabilidade, através de uma expressão de ser e estar no mundo intelectualizada e mística.

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Deve-se a Giorgio Vasari ( 1511 - 1574 ), artista plástico e escritor italiano, a utilização de maniera para referir-se a estilo - maniera vecchia <> maniera moderna = bella maniera - esta última considerada, com o adjetivo esclarece, positivamente e tendo em Miguel Ângelo um mestre.

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Max Dvorak (Kunstgeschichte als Geistesgeschichte, Munique, 1924 ) foi o primeiro a tentar uma conceituação do estilo que na pintura tem como maiores representantes o já citado Miguel Ângelo, Zuccari, El Greco, Rafael, Parmigianino, Pontormo, Rosso Fiorentino, Tintoretto, Veronese, para apenas citar poucos, dentre os maneiristas latentes, os maneiristas da primeira geração e os chamados maneiristas maduros ou tardios.

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Hauser (Maneirismo - a crise da renascença e o surgimento da arte moderna, SP, Perspectiva, 1976 ) em "Tentativa de uma definição", esclare que "Uma obra de arte maneirista é sempre uma peça de bravura, um truque triunfante de prestidigitação, uma exibição de fogos de artifício com centelhas e cores volantes"(...) "O paradoxo em geral implica uma vinculação de inconciliáveis, discordia concors, o rótulo freqüentemente aplicado ao maneirismo, indubitavelmente reflete um elemento essencial nela". (...) "O conflito expressa o conflito da própria vida e a ambivalência de todas as atitudes humanas, em suma, expressa o princípio dialético subjacente ao conjunto da perspectiva maneirista"(...) "O que torna o Maneirismo notável a esse respeito é que ele é incapaz de denunciar seus problemas a não ser sob a forma paradoxal".

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Na LITERATURA, em que sobressaem autores como Tasso, Cervantes, Ronsard, Shakespeare, e os poetas metafísicos, Camões, Bernardes, para nomear os principais, apenas e de passagem, observamos uma temática abrangente e comum que vai da dor à efemeridade, da desventura à incessante mutação de tudo, do nascimento à morte, que constitui o que se denominou "O homem e sua miséria".

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A angústia dessa condição miserável não está circunscrita apenas ao momento presente, pois que já vem do pecado original. Assim como o ameaçador mar, misterioso e portanto traiçoeiro, quando revolto; o mundo instável e aterrador, cheio de perigos e ciladas, tópicos muito gratos a poetas como Bernardes e Camões: "Andando em bravo mar, perdido o lenho".

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Também o desconcerto do mundo expressa-se em vários poetas; o labirinto em que a "alma está metida", o amor com suas contradições, evidenciam a natureza miserável e instável, ambígua, em que sobressai a melancolia e gera angústia.

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Como forma de expressão dessas situações conflitantes estão as antíteses, os paradoxos, os oximoros, as metáforas e agudezas verbais. Portanto, como disse Ronsard, o autor de "L'Amour piqué par une abeille", num dos sonetos a Hélène, "Vivez , si m'en croyez, n'attendez pas à demain: / Cueillez des aujourd'hui les roses de la vie".

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É mais dificil delimitar a MÚSICA maneirista, pois ora não apresenta nítida divisibilidade com a renascentista, ora já prenuncia - o que é até corrente - a barroca.

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Claudin de Sermisy, autor de uma Paixão segundo S. Mateus e de canções líricas, Marc-Antoine de Muret, Roland de Lassus, músico prodigioso de missas, paixões, magnificat, madrigais, o flamengo Cipriano de Rose, Luca Marenzio e o tempestuoso Carlo Gesualdo são os compositores mais destacados.

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Nas canções encontradas na Biblioteca do Museu Nacional de Arqueologia e Etnologia, Belém, Portugal, o Cancioneiro de Belém, na sua maioria anônimas, predominam os temas já anunciados, como a melancolia, a mudança, o desengano, a desesperança, que a música transmite na mesma intensidade do texto poético motivador, congeminando-se uma atmosfera de tristeza dominante e uma expressiva dissonância.

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Alongamento, anamorfose, angularidade, sfumato, terribilità, serpentinata, são algumas das técnicas de expressão ARTES PLÁSTICAS no Maneirismo.

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É vastíssimo o cosmo maneirista na pintura, escultura e arquitetura. Algumas obras e tratados foram já citados ou compõem a bibliografia adicional ao final deste escrito, para a qual remetemos o interessado. Sem serem exclusivas, as obras relacionadas levarão o leitor a uma maior bibliografia sobre o assunto.

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Como indicativo e iniciação nomearemos obras e autores de todas as fases do Maneirismo, sem incluir os reflexos e influências posteriores, pois como informa e adverte Hauser ( o . citada ), "O maneirismo, entretanto, embora não conhecesse recorrência ou continuação direta após o término no século XVII, sobreviveu como uma subcorrente na história da arte ocidental, às vezes mais, às vezes menos. Tendências maneiristas manifestaram-se repetidamente desde o barroco e rococó e, em particular, desde o fim do classicismo internacional, estando mais patentes em épocas de revolução estilística associada a crises espirituais agudas como a da transição do Classicismo para o Romantismo ou do Naturalismo para o pós - Impressionismo".

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As Transfigurações da escola de Rafael e de Rosso Fiorentino; as Vênus de Tintoretto, de Veronese, de Vasari e Rosso; as Descidas da Cruz de Rosso, Pontormo, Salviati, Barocci; Madonas de Parmigianino, com o Menino Jesus, do "collo lungo"e com a Rosa, as Pietà de Miguel Ângelo e Rosso, são alguns exemplos temáticos.

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Destacaremos também algumas pinturas expressivas do estilo: Auto-retrato por um espelho de Parmigianino; O Dia, Jupiter e Antíope de Correggio; Imaculada Conceição de Vasari; Lavagem dos pés, Criação dos animais de Tintoretto; Provérbios holandeses de Breughel, São João Batista, Triunfo de Mordecai, Tentação de Santo Antonio, Cristo e Madalena de Veronese; Sagrada Família, Ícaro, Apolo e Midas, Marte de Galtzius; Purificação do Templo, Ressurreição, Laocoonte, Martírio de S. Mauricio de El Greco.

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Na Escultura vale destacar Bologna - Mercúrio, Astronomia ; de Vris - Fauno, Psiqué ; Cellini - Saleiro e Perseu ; Miguel Ângelo - Cristo com a Cruz .

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Na Arquitetura, a Galeria de Francisco I de Rosso, decorador do Castelo de Fontainebleau ( a escola de Fontainebleau é importante marco no Maneirismo francês ); o Castelo de Verneil, a Porta Pia e a Capela de Medici, de Miguel Ângelo.

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Em Portugal, a fase inicial da arquitetura maneirista está representada pelo Claustro da Manga de Santa Cruz de Coimbra, da Igreja da Graça de Évora ( Diogo de Arruda ) e mais principalmente pelo Claustro do Convento de Cristo de Tomar ( Torralva - Filipe Terzi ).

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Pais da Silva em síntese lapidar a ele se refere: "O que mais impressiona no claustro é o jogo arquitetônico das formas possibilitando insuspeitadas entradas de luz de uma irrealidade quase mágica. Diogo de Torralva conseguiu transmitir-nos o anti-realismo típico da maniera. Enquanto no Jardim da Manga é água o elemento maneirista por excelência, aqui é a luz".

As Igrejas de São Roque e de São Vicente de Fora, Lisboa, o fronstispício da Misericórdia de Viana do Castelo são outros monumentos a considerar.

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Na pintura há que ressaltar-se o "perfil pedagógico"das cenas dos milagres e do martirológio e a exaltação mística: o Martírio de São Sebastião de Gregório Lopes; os painéis da Igreja de Freixo de Espada à Cinta, Adoração dos Magos, entre outros.

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O Retrato de D. Sebastião, de Cristóvão de Morais; a Anunciação e Adoração dos Magos, de Gaspar Dias; Juízo Final ( teto da Igreja de São Roque ), de Francisco Venegas; Adoração da Corte Celestial, de Amaro do Vale, estão entre os mais representativos do estilo.

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Mereceria especial referência ou estudo específico um confronto ou aproximação, no caso da arte em Portugal, entre Manuelismo e Maneirismo.

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"Bibliografia básica e de fácil consulta".

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Artes Plásticas:

Battisti, Eugênio. Renascimento e Maneirismo. Lisboa, Verbo, 1984

Hauser, Arnold. História Social de la Literatura y el Arte. Madri, Guadarrama, 1968 ( Há edição em português ).

Música:

Candé, Roland. História Universal da Música. S.Paulo, Martins Fontes, 1994, 2v.

Literatura:

Carpeaux, O . Maria. História da Literatura Ocidental, Rio de Janeiro; O Cruzeiro, s/d, 9v. ( Há edição mais recente ).

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"Bibliografia adicional".

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DUBOIS, C-G. Le manièrisme. Paris, PUF, 1979

HAUSER, A . Maneirismo... S.Paulo, Perspectiva / EDUSP, 1976

HOCKE, G.R. O mundo como labirinto. S.Paulo, Perspectiva, 1978

SERRÃO, V. A Pintura maneirista em Portugal. Lisboa, ICLP, 1982

_________. O Maneirismo e o estatuto social... Lisboa, IN-CM, 1983

SHEARMAN, J. O maneirismo. S.Paulo, Cultrix, 1978

SILVA, J.H.P. Estudos sobre o Maneirismo. Lisboa, Estampa, 1983

_________. Páginas de Hitória da Arte. Lisboa, Estampa, 1986

WEISE, G.Il Manierismo. Florença, Leo S. Olschki, 1971

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Por Antonio Basilio Rodrigues

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