Antonio Basilio Rodrigues
Curriculum


BARROCO - I

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O barroco será extravagância e artifício, perversão

de qualquer ordem fundada, equilibrada: moral.

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O barroco suprime aquilo que denota, anula-o:

o seu sentimento é a insistência do seu jogo.

Severo Sarduy

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Iniciamos por dizer que tentaremos resumir em três partes ( em janeiro, fevereiro e março ) a amplitude e complexidade do Barroco.

Já se disse com muita propriedade que o "sol nunca se põe no império barroco" e poderíamos acrescentar que rios de tinta já foram gastos para estudar, interpretar, analisar, descrever, discutir, as diferentes manifestações e vertentes da chamada - às vezes impropriamente - Arte da Contra-Reforma, caracterização tanto imprecisa como limitadora, considerando que se trata de um estilo suficientemente sensorial e teatral para ser comedido, senão contido, em seus arroubos e excentricidades, melhor, sua vitalidade: uma espécie de divertimento e sensorialismo que se contrapõe ao elitismo e à melancolia do estilo que o antecede, o Maneirismo.

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O Barroco preencheu um longo e amplo tempo e espaço, se atentarmos aos conceitos usualmente empregados. Cerca de século e meio - já antes do final do século XVII e primeiras décadas do XVIII - abrangendo quase toda a Europa e na América Latina. Há ainda os que vêem barroco além desse extenso universo, assim como tendências barroquizantes mesmo na modernidade.

Um estilo de época, no entanto, é manifestação sócio-cultural de um período, constituindo-se uma síndrome, uma totalidade, que não mais se retoma ou retorna, como tivemos oportunidade de ressaltar certa feita em um Congresso de Literatura.

E como costuma ocorrer, cada período artístico tem seu inicio, vincadamente característico, seu apogeu, maturidade e culminância, e seu declínio, saturação, para então emergir a nova tendência ou corrente.

Pesquisadores de várias culturas dedicaram-se a explicar a etimologia da palavra barroco. As explicações são tão diversificadas como descabidas em certos casos: seja pela associação ao nome de um pintor, Federico Barocci, seja à terminologia da lógica escolástica, seja a uma cidade, Barokia, entre tantas outras teorias.

Informa Vitor Manuel de Aguiar e Silva ( Teoria da Literatura ) que "Com efeito, atualmente os estudiosos consideram o origem hispânica do vocábulo como uma conclusão bem fundada: essa origem deve ser procurada no termo "barroco", usando na língua portuguesa do século XVI para designar uma pérola de forma irregular.

A etimologia desta palavra portuguesa não está suficientemente dilucidada, embora se admita que derive do latim uerruca, termo que significava uma pequena elevação de terreno e que já em Plínio aparece relacionado com pedras preciosas".

E acrescenta mais adiante: "a palavra "barroco", já existente na língua portuguesa, teria adquirido uma nova vida nas plagas do Oriente, passando a designar as pérolas não redondas e imperfeitas".

Se durante séculos ( a partir do XVIII ) a denominação barroco era referência depreciativa - irregular, extravagante, bizarra; arte decadente e até bastarda - os estudos dos últimos cem anos reabilitaram completamente as manifestações artísticas - plásticas, musicais e literárias - do estilo, principalmente após as obras de Heinrich Wölfflin ( Renaissance und Barock, 1888, 1915, e Kunstgeschichtliche Gundbegriffe, 1915 ), a que se seguiram outros tratadistas e com eles uma multiplicidade de teorias e abordagens do fenômeno barroco, a contar entre as mais recentes a do autor da epígrafe deste escrito, Severo Sarduy (n.1937), o autor de Maitreya, o Buda futuro. Cubano de nascimento, Sarduy no seu Barroco, Editions du Seuil, percorre os vastos e intangíveis caminhos que se iniciam no Big Bang e do Steady State para culminar em o círculo: Galileu/Rafael; a alegoria: Galileu/Tasso; a cosmologia barroca: Kepler.

Da segunda obra citada de Wölfflin reproduziremos em síntese as cinco categorias antitéticas Renascimento-Barroco, em que pese a imprecisão, de um lado, e as limitações dessa classificação, de outro, o pelo "esquecimento" do Maneirismo, embora presente em alguns dos princípios atribuídos ao Barroco. Mesmo assim vale reproduzi-las resumidamente:

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1. Passagem do linear para pictórico;

2. Passagem da visão de superfície à visão de profundidade;

3. Passagem da forma fechada à forma aberta;

4. Passagem da multiplicidade à unidade;

5. Passagem da claridade absoluta à claridade relativa;

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Como manifestações mais características genericamente constituíntes do Barroco estão a intensa dramaticidade de motivos, a prefêrencia pelo claro/escuro, a diagonal, o ornamento, a exuberância, o gosto do luxuoso e pelo contraste, a ânsia de ascensão, o espetacular e o arrojado, o ímpeto e as variações de formas e estruturas, de luz e cor. Nesses e noutros motivos transitavam poetas, músicos, pintores, escultores e arquitetos, quer envolvidos pela tendência religiosa dominante - ou até para lhe escapar sub-repticiamente - quer por um racionalismo impregnado quase sempre pelo teocentrismo implícito, ambivalência bem familiar ao homem barroco.

"A persistência das legitimações religiosas no seio de uma sociedade crescentemente racionalizada nas esferas política e econômica explica porque o século do barroco assistiu ao último grande surto de arte religiosa no Ocidente - da iconografia cheia de novos santos em êxtase e martírio aos autos sacramentais de Lope de Veja ( 1562 - 1635 ) e Calderón ( 1600 - 1681 ), passando pela veemência da oratória sacra ( Vieira, Bossuet ) e da prosa de Pascal ( 1623 - 1662 ). Em particular, a Contra - Reforma encontraria na plástica Barroca ( ex. Rubens, Bernini ), despida do cerebralismo maneirista, sensualmente sedutora e comunicativa, o veículo predileto de uma estética propagandística , capaz de servir como instrumento da catequese ou reconversão nessa "Europa das capitais" ( G.C.Argan ) socialmente ainda bem hierarquizada, com sua ampla base de massas camponesas iletradas ( V.L.Tapié )" (...) "O caráter fundador do barroco, como paidéia estética dos tempos modernos, como arte resposta em consonância com o impulso íntimo da cultura, inspira a sua exuberância, tão diversa da morbidez maneirista", esclarece José Guilherme Merquior ( in: Teoria Literária ).

Assim é que predominam certas características, ou invariantes, que envolvem as diferentes manifestações do estilo barroco, como a tensão dos contrastes ( céu x terra, alma x corpo, razão x fé ); o fusionismo ( luz x trevas, racional x irracional ); os conflitos e tensões interiores; o culto da solidão e do pessimismo; a predominância do imaginado sobre o real; a humanização do sobrenatural, o instinto lúdico ( aludido na epígrafe deste escrito ) e o erotismo.

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No próximo mês serão referidas as principais obras e autores do Barroco, nas artes plásticas, literatura e música. Ao final do terceiro escrito ( Barroco - III ) será indicada uma Bibliografia básica sobre o estilo.

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Antonio Basilio Rodrigues

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