Antonio Basilio Rodrigues
Curriculum


BARROCO - II

.

.

.

.

LITERATURA E MÚSICA

.

. L'homme n'est qu'un roseau.

Pascal
La vida es sueño.

Calderon

 

Nunca seria demais reiterar a extensa dimensão do período barroco, a variedade de sua produção artística e a amplitude de seus limites, se é que houve limites ou limitação.

 

Não há quem não conheça um autor, uma obra, um monumento barroco, quaisquer que sejam suas manifestações ou fenômenos, dentro ou fora do país: Gôngora, Vivaldi, Pascal Bach, Padre Vieira, Haendel, Calderón de la Barca, Albinoni, lidos, ouvidos e referidos constantemente e mesmo tidos como "clássicos" de uma época extremamente criativa musical e literariamente.

 

Na longa margem de seus domínios, amplos e tentaculares, o Barroco tornou-se palco e espetáculo de grandes transformações, de animação e dinamização de formas e sentidos.

 

Na música assiste-se ao despertar do "stille concertato", em que o inesperado, a diversidade de individualidades musicais (vozes, instrumentos, grupos vocais e instrumentais) concertavam livremente sustentados pelo baixo contínuo; também e melodrama, o oratório, o chamado estilo representativo, com cenários, figurinos, jogos cênicos, constituíam manifestações de uma exibição nunca antes vista.

 

A poética barroca é a singular resultante lúdica de um contexto e de uma era de subversão de espaço, físico e metafísico, de crenças, de definições, de ortodoxias e de seu objeto. Sítio de tensão e conflito entre o naturismo e o ilusionismo, misticismo e realismo, religiosidade e sensualidade, em suma, os opostos, o contraste, a antítese, o oximoro, a literatura especula enfim o seu próprio processo de fazer-se, fazendo-se. A metáfora é a própria síntese; o espelho amplia distorcidamente um estar no mundo, mais que um ser no mundo, que se constrói adornado pela ambigüidade e pela eroticidade, latentemente manifesta, perdoe-se-nos a expressão.

 

A assertiva esclarecedora de Carpeaux - que colhemos na sua História da Literatura Ocidental, escrita há mais de cinqüenta anos - dispensa-nos maiores considerações:

 

«O século XVII é a grande época da poesia priapesca, escrita às vezes por poetas devotos. (...) É o triunfo da hipocrisia dos poetas e escritores, sempre ameaçados pelo moralismo da inquisição. Por outro lado, a mesma hipocrisia justifica-se perante o tribunal, interpretando tudo em sentido moralista."

 

Foram décadas significativamente ricas e expressivas em todas as manifestações do engenho humano. Para além do bem e do mal, por lá transitaram e fervilharam figuras como Kepler e Galileu, Kircher e Gryphius, Descartes e Pascal, Richelieu e Luís XIV, Bacon e Leibniz, Gracián e Boileau, Monteverdi e Purcell, Cromwell e Carlos II, e Instituições como Port-Royal e o Palácio de Rambouillet.

 

Sóror Madalena da Glória, uma das três soróres do Barroco português e que usava o pseudônimo anagramático de Leonarda Gil da Gama, parece configurar a galáxia barroca no último terceto de seu soneto Queixas da sorte: "Fiz em falsas promessas confiança, / Porém quando a fé nelas mais presume, / No mesmo que presume acha os enganos".

 

Ponto de partida desse estilo de época em língua portuguesa, e que segundo Jacinto do Prado Coelho "marca o início da adulta de nossa prosa", é Corte naAldeia, 1619, a "obra eterna" no dizer de Gracián, escrita por Francisco Rodrigues Lobo, "vinda a lume quando D. Francisco Manuel de Melo e o Padre Antônio Vieira completavam onze anos". E lembre-se, a propósito, que as reuniões de discussão e os diálogos, matéria de Corte na Aldeia, anteciparam o fazer das Academias - dos Generosos e dos Singulares - e muito do fazer poético que seria recolhido nas coletâneas publicadas no século seguinte.

 

Além dos já citados Rodrigues Lobo, Vieira e Francisco Manuel de Melo, autores como Manuel Bernardes, Luís de Sousa, Jerônimo Baía, Antônio Barbosa Bacelar, Gregório de Matos, Manuel Botelho de Oliveira, Serrão de Crasto, Antônio José da Silva, Violante do Céu, Maria do Céu, as outras duas soróres, compõem reduzida relação entre os muitos que se dedicaram à epistolografia, aos sermões, à poesia dramática, épica e lírica, à historiografia, à prosa doutrinal e de ficção.

 

As coletâneas mais representativas da produção barroca em Portugal são a Fênix Renascida ou obras poéticas dos melhores engenhos portugueses, cinco volumes, Lisboa, 1716-1728 e o Postilhão de Apoio, 1761-1762, em todo seu título Ecos que o Clarim a Fama dá; Postilhão de Apolo montado no Pégaso, girando o Universo para divulgar ao orbe literário as peregrinas flores da poesia portuguesa.

 

De Camões a Gôngora, entre Inês e Polifemo, cultistas e conceptistas, leigos ou ordenados, varões e madonas agitam-se, locomovem-se e enredam-se em amores e dores, anseios e bloqueios, manjares e abstinências, participando de uma realidade em que se confundiam, ou fundiam, a aparência e a existência, o engano e a impossibilidade referencial, pois tudo se revela instável e variável.

 

A "mudança imaginada ... ainda homicida", a morte em vida, o andar perdido em si como em deserto, boca que dá vida, os olhos que trazem a morte, a "bela ingrata", o pecado que arde, o frio que martiriza, "o mal, que me consome, me sustenta", são algumas das engenhosas construções a par dos labirintos [clique aqui] acrósticos, anagramas, enigmas, em composições como sonetos [clique aqui] romances, canções, décimas, vilancicos, madrigais, servindo a temas como o tempo, a ilusão, a ausência, o sofrimento amoroso, lírica ou jocosamente desenvolvidos.

 

Ainda que antecedido por duas Euridice, de Peri e Caccini, é com Orfeo, de Monteverdi, que podemos considerar o pleno início do barroco musical e também da Ópera. A partir daí vai revelar-se uma imensa plêiade de compositores em que se contam Schütz, Lully, Purcell, Corelli, Pachelbel, os Scarlatti, Albinoni, Couperin, Vivaldi, Tellemann, Rameau, Bach, Haendel e uma infinidade de Óperas, de músicas sacras - Missas, Glórias, Magnificat, Stabat Mater, Cantatas, Motetos, Oratórios, Paixões - concertos - concertti grossi - suites, sonatas.

 

Resultante de sublime inspiração, como se cria então, na música também a exuberância formal busca alcançar pelo faustoso e pelo contraste a imaginação da audiência, envolvendo-a para emocioná-la e cativá-la, o que estava em consonância com o surgimento dos novos gêneros acima referidos.

 

Na França de Luís XIV é Versalhes um grande centro musical, assim como as igrejas e conventos. Por lá se exibiram figuras como Campra, Lully e Couperin, enquanto em Londres, uma das primeiras cidades a possuir teatro público de ópera e a ter concertos públicos, pontificava Purcell. Mas é na Itália - Veneza, Nápoles e Florença - a detentora dos maiores espetáculos musicais a partir da terceira década do século XVII (até 1700 mais de 350 novas óperas foram montadas apenas em Veneza). Hamburgo, na segunda metade do século, passa a ser a capital da música na Alemanha e por lá andou o jovem Bach.

 

Prolífico, Vivaldi propõe-se a compor para vários instrumentos, alguns pouco solicitados por outros compositores: alaúde, bandolim, tiorba, viola de amor, como solistas. O autor da La stravaganza compôs vinte e três concertos para oboé, trinta e nove para fagote, mais de quarenta óperas, cerca de cinqüenta cantatas sacras e outras tantas profanas, noventa e quatro sonatas e centenas de concertos e sinfonias, o que lhe valeu o título de pai do concerto e da sinfonia e sem dúvida mestre, ou pelo menos inspirador de outros compositores coevos, incluindo Bach, que certamente elogiou as Quatro Estações e as Glórias.

 

Mas, com toda a consideração por seus antecessores e contemporâneos, alguns deles seus mestres, sem dúvida desponta com justa razão J. S. Bach, o mais célebre dos compositores de todos os tempos, seja pelo seu gênio inovador, seja pela magnificência de composições como a Missa em Si Menor, as Paixões, principalmente a segundo São Mateus e São João, o Oratório de Natal (seis Cantatas), as impressionantes Cantatas (sacras e profanas), compostas em poucos dias e contanto com reduzido número de instrumentistas, e destacados os concertos para cravo, violino e flauta, as suites para violoncelo solo, a pedagógica e tecnicamente esmerada obra denominada (imperfeitamente) Cravo bem temperado, além dos seus Concertos de Brandemburgo e as quatro aberturas ou suítes. Irretorquivelmente não se pode falar em música sem mencionar Bach, no Barroco, assim como Beethoven no Classicismo / Romantismo e Wagner na técnica operística, a nosso ver os três gênios da arte musical.

 

O Messias, as Cantatas (100), as Óperas (41), as Suítes e Concertos para órgão (20), Concertos Grossos e trios, conferem a Haendel honroso destaque entre os músicos de todos os tempos.

 

Em Portugal, além da Publicação da Arte da Música, de Antônio Fernandes; o ambiente musical de Vila Viçosa, importante centro polifônico que ombreava com os grandes do resto da Europa; a Corte de D. João V, requintado círculo musical onde se movimentaram compositores e instrumentistas da época. Diogo Dias Malgás, Pedro de Araújo, Duarte Lobo, Estevam Lopes Morago, Antônio Teixeira e Carlos Seixas, que viveu apenas criativos 38 anos (alguns o consideram, avant la lettre, o Mozart português) e que sem dúvida é das mais expressivas revelações como compositor e intérprete. O seu concerto para Cravo está entre os melhores da época e até mesmo Domenico Scarlatti, que seria seu professor, ao ouvi-lo pela primeira vez declarou que nada tinha a ensinar ao português, antes aprender com ele.

 

Quanto ao Brasil não se justifica o uso da expressão barroco mineiro para conceituar ou definir a música do século XVIII, já que estilisticamente ela está mais nos padrões do que chamaríamos pré-classicismo, nos moldes da música da alguns dos filhos de Bach e até Haydn.

 

Brevemente, vale informar que os instrumentos barrocos diferiam dos que foram adotados a partir do Romantismo. De algum tempo vêm conjuntos e instrumentistas tentando reconstituir a sonoridade (sustentada e contida) da época, seja nas cordas, sopros e percussão. Isso deve-se à atenção dispensada por determinados conjuntos musicais - de música antiga - a reproduzir com fidelidade e com características marcantes a instrumentação que os compositores barrocos muito bem conheciam e habilmente exploravam.

 

No próximo mês nos dedicaremos às Artes Plásticas.

 

Antonio Basilio Rodrigues

.

.

.