BARROCO - III
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BARROCO III
Artes Plásticas
Dual, contraditório, dilacerado, o Aleijadinho
é bem o barroco encarnado na dimensão humana
e
criativa de uma perplexidade mineira,
brasileira.
Affonso Ávila
A grande tendência, comum a todas a
manifestações da produção humana, durante o Século XVII e
boa parte do XVIII, é o barroco.
Mais que isso, O Barroco ultrapassou conceitos
de um estilo de época ou de arte para caracterizar-se como
temperamento, mesmo comportamento, um modo de vida, uma
cosmovisão, uma atitude existencial que incluía ciências e
artes, códigos e posturas, além do tempo e do espaço, para
gerar variados fundamentos em termos de gênese, desenvolvimento,
manifestação, de formas precursoras, inclusive na
pré-história, e desdobramento mesmo em pleno-modernismo.
O que parece, à primeira vista, pesado,
confuso, excessivo, porém envolvente e contagiante, abre-se em
possibilidades e expectativas cada vez mais amplas. As formas
giram em ascensional vôo como que a atingir o infinito,
expressivo movimento em perpétuo vir-a-ser, em ambigüidade
extasiante, em ânsia de novidade, transformando, ou
transtornando, sentidos e emoções, pela fantasia, pelo
fascínio, pela exuberância e dramaticidade.
Já diversos tratadistas ressaltaram que não
foi por acaso que o Barroco serviu de instrumento à Igreja
católica para cativar, encarecer e recuperar seus paroquianos -
e até os hereges - pela magnificência, pelo
"espetáculo" e envolvente "magia" que tocava
os espectadores, logo impressionados participantes da cena.
Fechamos esta primeira parte com o auxílio de
Affonso Ávila (O lúdico e as projeções do mundo Barroco):
"Se o barroco exibiu, em sua
originalidade de estilo, uma tão desenvolvida abertura
de formas, isso não decorreu de uma atitude anárquica
do artista. A arte de Seiscentos e seus desdobramentos
conheceu, como qualquer outra, algumas leis genéricas
que os textos teóricos deixaram fixadas para a
composição literária e a obra plástica. Entretanto,
ao contestar uma linguagem estática que se tornara
incapaz de exprimir a crise histórica e existencial do
barroco, o artista, para decantar as formas novas que
balizariam seu trabalho criador, viu-se levado por vezes
a assumir a radicalidade do inventivo, do arbítrio, do
impactual"
Nas Artes Plásticas, avulta como maior e mais
apurada expressão a Arquitetura, ainda que a partir de agora
desapareça a rigidez de limites entre esta, a escultura e a
pintura. Arquitetos, escultores e pintores parecem identificados
na ânsia de interpretar novos valores, de buscar os mesmos
princípios e de seguir o mesmo gosto pelo movimento, ímpeto,
contraste, luz e cor, exaltação e fausto, sensorialismo e
ilusório.
O polivalente (além de escultor, arquiteto e
pintor, também libretista, comediógrafo, cenógrafo e
figurinista) Giovanni Lorenzo BERNINI, e seu assistente - embora
rival - Francesco Castelli, O BORROMINI, são os grandes
arquitetos-escultores no século XVIII e modelos consagrados
pelos seus contemporâneos. O baldaquim da Basílica de São
Pedro, em Roma, deslumbrante monumento arquitetônico-escultural
labirintos [clique aqui], assim como a Praça de São Pedro, ao passo
que o Borromini - alguns o consideram o ideal barroco em
arquitetura - além de restaurador, notabilizou-se pela
utilização de massas sólidas e uma ornamentação de maneira
complicada - Capela de São Carlos - e de inusitado movimento
ondulado - Oratório dos Filippini. A mencionar igualmente a obra
arquitetônica de Baldassare Longhena e Guarino Guarini; na
França Jules Hardouin-Mansart; nos países germânicos Johann
Lukas von Hildebrandt, Johann Bernhard Fischer von Erlach, Jakob
Praudtauer; na Espanha Fernando Casas y Novoa e os Churriguera;
Lourenzo Rodrigues e Jeronimo Balbas no México. Em Portugal
consideram-se os discípulos de Ludovice e Nasoni, a saber Mateus
Vicente e Manuel da Maia, na linha dos já referidos Bernini e o
Borromini. Os Clérigos, Porto, e Queluz estão entre os
monumentos mais conhecidos destes arquitetos.
É no século XVIII que a arquitetura
brasileira atinge sua importância maior, destacando-se os
monumentos - poucos de arquitetura civil, muitos da religiosa -
de cidades como Salvador, Olinda, Recife, Belém, além da
mineiras e do Rio de Janeiro.
Manuel Francisco Lisboa, português de
nascimento, e seu filho Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho,
trabalharam nas principais igrejas de Ouro Preto, enquanto Manuel
Ferreira Jácome e Manuel Cardoso Saldanha projetaram e riscaram
as igrejas do Nordeste.
Da primorosa "Pequena Iniciação ao
Barroco Mineiro" (In: Barroco Mineiro - Glossário
...), extraímos:
«Se Ouro Preto é a cidade-síntese, a
cidade-documento que nos entrega, na sua coerência e
autenticidade, a imagem viva de uma cultura, de um estilo
civilizador, de um modo de ser que marcaram toda uma
decisiva época da formação mineira, da formação
brasileira, a arte-síntese, a arte-documento que melhor
exprimiu todos os valores e tendências que então se
manifestaram e prevaleceram não poderá ser outra senão
a arte do Aleijadinho. A ela já nos referimos,
acentuando o papel exponencial desse artista mineiro,
desse artista mulato, nos lances de evolução de nossa
arquitetura, de nossa talha, de nossa escultura.»
Aludimos à estreita e íntima relação
escultura/arquitetura. Assim é que os escultores barrocos tinham
como preocupação fundamental fundirem-se com as outras artes, e
tornar-se difícil, na maioria das vezes, separar os dois
aspectos: "o conjunto é claramente arquitetônico, mas o
papel principal foi confiado às estátuas ..."
Itália,
Itália, Espanha, Holanda, França, são os principais focos
de pintura barroca. Caravaggio, os Carraci, os Brueghel, Agostino
e Anniballe, Velazquez, Murilo, Rubens, Van Dyck, Jordaens, Jals,
Tiepolo, Rembrandt e entre os franceses, um tanto distantes dos
"modelos títpicos", Poussin, Rigaud, Callot,
constituem os pintores mais expressivos.
Os efeitos trompe l'oeil - Tiepolo, Pozzo - os
contrastes de luzes e sombras - Caravaggio - os perfis
psicológicos, o "realismo" cálido - Rembrandt - os
contrapontos cromáticos - Velazquez, são algumas das
determinantes estilísticas da pintura barroca.
Rubens - Pieter Paul - é considerado oexeplo mais que
perfeito de barroco exultante e otimista: composições ousadas,
volumes inter-relacionados dinamicamente, espirais e diagonais,
figuras roliças e gesticulantes. Sua Crucificação
(1620), além do senso de movimento, do vigoroso dinamismo que
pode ser apreendido na força e na intensidade dos elementos, na
ênfase da linha diagonal e na representada agonia dos ladrões,
evidencia pictoricamente o sofrimento de Nossa Senhora, a
súplica através das mãos de Madalena e a serenidade do Cristo,
numa perspectiva em que as partes convergem para a dramaticidade
da cena.
Foram poucos os expoentes no Brasil, podendo citar-se o Frei
Ricardo do Pilar, alemão de nascimento, de Mariana, Manuel da
Costa Ataíde, sem dúvida o mais importante barroco nacional,
autor de pinturas perspectivistas em tetos (São Francisco, Ouro
Preto) [clique aqui]de igrejas e capelas mineiras, ainda que seu
estilo esteja bastante pr\oximo do Rococó, assunto que será
desenvolvido no mês que vem, no Roteiro Cultural desta Galeria.
Bibliografia adicional
ÁVILA, Affonso. O lúdico e as projeções do mundo Barroco.
S.P., Perspectiva, 1971
-----. Barroco Mineiro. Glossário de Arquitetura e
ornamentação. S.P., Melhoramentos, 1980
CONTI, Flávio. Como reconhecer a Arte Barroca. Lisboa, Ed.
70, 1984
PEREIRA, José Fernandes. Arquitetura Barroca em Portugal.
Lisboa, 1986
HATHERLY, Ana. A Experiência do Prodígio. Lisboa, IN/CM,
1989
PISCHEL, Gina. História Universal da Arte. S.P.,
Melhoramentos, s/d. v.3
SARDUY, Severo. O Barroco. Lisboa, Vega, 1988
Antonio Basilio Rodrigues