Antonio Basilio Rodrigues
Curriculum


BARROCO - III

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. BARROCO III

Artes Plásticas

 

Dual, contraditório, dilacerado, o Aleijadinho

é bem o barroco encarnado na dimensão humana e

criativa de uma perplexidade mineira, brasileira.

Affonso Ávila

 

 

A grande tendência, comum a todas a manifestações da produção humana, durante o Século XVII e boa parte do XVIII, é o barroco.

Mais que isso, O Barroco ultrapassou conceitos de um estilo de época ou de arte para caracterizar-se como temperamento, mesmo comportamento, um modo de vida, uma cosmovisão, uma atitude existencial que incluía ciências e artes, códigos e posturas, além do tempo e do espaço, para gerar variados fundamentos em termos de gênese, desenvolvimento, manifestação, de formas precursoras, inclusive na pré-história, e desdobramento mesmo em pleno-modernismo.

O que parece, à primeira vista, pesado, confuso, excessivo, porém envolvente e contagiante, abre-se em possibilidades e expectativas cada vez mais amplas. As formas giram em ascensional vôo como que a atingir o infinito, expressivo movimento em perpétuo vir-a-ser, em ambigüidade extasiante, em ânsia de novidade, transformando, ou transtornando, sentidos e emoções, pela fantasia, pelo fascínio, pela exuberância e dramaticidade.

Já diversos tratadistas ressaltaram que não foi por acaso que o Barroco serviu de instrumento à Igreja católica para cativar, encarecer e recuperar seus paroquianos - e até os hereges - pela magnificência, pelo "espetáculo" e envolvente "magia" que tocava os espectadores, logo impressionados participantes da cena.

Fechamos esta primeira parte com o auxílio de Affonso Ávila (O lúdico e as projeções do mundo Barroco):

 

"Se o barroco exibiu, em sua originalidade de estilo, uma tão desenvolvida abertura de formas, isso não decorreu de uma atitude anárquica do artista. A arte de Seiscentos e seus desdobramentos conheceu, como qualquer outra, algumas leis genéricas que os textos teóricos deixaram fixadas para a composição literária e a obra plástica. Entretanto, ao contestar uma linguagem estática que se tornara incapaz de exprimir a crise histórica e existencial do barroco, o artista, para decantar as formas novas que balizariam seu trabalho criador, viu-se levado por vezes a assumir a radicalidade do inventivo, do arbítrio, do impactual"

 

Nas Artes Plásticas, avulta como maior e mais apurada expressão a Arquitetura, ainda que a partir de agora desapareça a rigidez de limites entre esta, a escultura e a pintura. Arquitetos, escultores e pintores parecem identificados na ânsia de interpretar novos valores, de buscar os mesmos princípios e de seguir o mesmo gosto pelo movimento, ímpeto, contraste, luz e cor, exaltação e fausto, sensorialismo e ilusório.

O polivalente (além de escultor, arquiteto e pintor, também libretista, comediógrafo, cenógrafo e figurinista) Giovanni Lorenzo BERNINI, e seu assistente - embora rival - Francesco Castelli, O BORROMINI, são os grandes arquitetos-escultores no século XVIII e modelos consagrados pelos seus contemporâneos. O baldaquim da Basílica de São Pedro, em Roma, deslumbrante monumento arquitetônico-escultural labirintos [clique aqui], assim como a Praça de São Pedro, ao passo que o Borromini - alguns o consideram o ideal barroco em arquitetura - além de restaurador, notabilizou-se pela utilização de massas sólidas e uma ornamentação de maneira complicada - Capela de São Carlos - e de inusitado movimento ondulado - Oratório dos Filippini. A mencionar igualmente a obra arquitetônica de Baldassare Longhena e Guarino Guarini; na França Jules Hardouin-Mansart; nos países germânicos Johann Lukas von Hildebrandt, Johann Bernhard Fischer von Erlach, Jakob Praudtauer; na Espanha Fernando Casas y Novoa e os Churriguera; Lourenzo Rodrigues e Jeronimo Balbas no México. Em Portugal consideram-se os discípulos de Ludovice e Nasoni, a saber Mateus Vicente e Manuel da Maia, na linha dos já referidos Bernini e o Borromini. Os Clérigos, Porto, e Queluz estão entre os monumentos mais conhecidos destes arquitetos.

É no século XVIII que a arquitetura brasileira atinge sua importância maior, destacando-se os monumentos - poucos de arquitetura civil, muitos da religiosa - de cidades como Salvador, Olinda, Recife, Belém, além da mineiras e do Rio de Janeiro.

Manuel Francisco Lisboa, português de nascimento, e seu filho Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, trabalharam nas principais igrejas de Ouro Preto, enquanto Manuel Ferreira Jácome e Manuel Cardoso Saldanha projetaram e riscaram as igrejas do Nordeste.

Da primorosa "Pequena Iniciação ao Barroco Mineiro" (In: Barroco Mineiro - Glossário ...), extraímos:

 

«Se Ouro Preto é a cidade-síntese, a cidade-documento que nos entrega, na sua coerência e autenticidade, a imagem viva de uma cultura, de um estilo civilizador, de um modo de ser que marcaram toda uma decisiva época da formação mineira, da formação brasileira, a arte-síntese, a arte-documento que melhor exprimiu todos os valores e tendências que então se manifestaram e prevaleceram não poderá ser outra senão a arte do Aleijadinho. A ela já nos referimos, acentuando o papel exponencial desse artista mineiro, desse artista mulato, nos lances de evolução de nossa arquitetura, de nossa talha, de nossa escultura.»

 

Aludimos à estreita e íntima relação escultura/arquitetura. Assim é que os escultores barrocos tinham como preocupação fundamental fundirem-se com as outras artes, e tornar-se difícil, na maioria das vezes, separar os dois aspectos: "o conjunto é claramente arquitetônico, mas o papel principal foi confiado às estátuas ..."

Itália,

Itália, Espanha, Holanda, França, são os principais focos de pintura barroca. Caravaggio, os Carraci, os Brueghel, Agostino e Anniballe, Velazquez, Murilo, Rubens, Van Dyck, Jordaens, Jals, Tiepolo, Rembrandt e entre os franceses, um tanto distantes dos "modelos títpicos", Poussin, Rigaud, Callot, constituem os pintores mais expressivos.

Os efeitos trompe l'oeil - Tiepolo, Pozzo - os contrastes de luzes e sombras - Caravaggio - os perfis psicológicos, o "realismo" cálido - Rembrandt - os contrapontos cromáticos - Velazquez, são algumas das determinantes estilísticas da pintura barroca.

Rubens - Pieter Paul - é considerado oexeplo mais que perfeito de barroco exultante e otimista: composições ousadas, volumes inter-relacionados dinamicamente, espirais e diagonais, figuras roliças e gesticulantes. Sua Crucificação (1620), além do senso de movimento, do vigoroso dinamismo que pode ser apreendido na força e na intensidade dos elementos, na ênfase da linha diagonal e na representada agonia dos ladrões, evidencia pictoricamente o sofrimento de Nossa Senhora, a súplica através das mãos de Madalena e a serenidade do Cristo, numa perspectiva em que as partes convergem para a dramaticidade da cena.

Foram poucos os expoentes no Brasil, podendo citar-se o Frei Ricardo do Pilar, alemão de nascimento, de Mariana, Manuel da Costa Ataíde, sem dúvida o mais importante barroco nacional, autor de pinturas perspectivistas em tetos (São Francisco, Ouro Preto) [clique aqui]de igrejas e capelas mineiras, ainda que seu estilo esteja bastante pr\oximo do Rococó, assunto que será desenvolvido no mês que vem, no Roteiro Cultural desta Galeria.

 

Bibliografia adicional

ÁVILA, Affonso. O lúdico e as projeções do mundo Barroco. S.P., Perspectiva, 1971

-----. Barroco Mineiro. Glossário de Arquitetura e ornamentação. S.P., Melhoramentos, 1980

CONTI, Flávio. Como reconhecer a Arte Barroca. Lisboa, Ed. 70, 1984

PEREIRA, José Fernandes. Arquitetura Barroca em Portugal. Lisboa, 1986

HATHERLY, Ana. A Experiência do Prodígio. Lisboa, IN/CM, 1989

PISCHEL, Gina. História Universal da Arte. S.P., Melhoramentos, s/d. v.3

SARDUY, Severo. O Barroco. Lisboa, Vega, 1988

 

Antonio Basilio Rodrigues

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